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6 — A Saúde da Alma
“Assim como o corpo pode adoecer, a alma também pode perder sua saúde. E, muitas vezes, ela adoece silenciosamente. ”
Quando pensamos em saúde, quase sempre pensamos no corpo.
Medimos a pressão. Fazemos exames. Observamos sintomas. Procuramos médicos. Mudamos a alimentação quando alguma coisa não vai bem.
Aprendemos a reconhecer muitos sinais do corpo.
Com a alma é diferente.
Ela nem sempre grita.
Às vezes, apenas sussurra.
Um desânimo que permanece mais do que deveria.
Uma irritação que começa a aparecer em lugares onde antes não existia.
A perda da alegria pelas coisas simples.
O medo crescendo.
A necessidade de controlar tudo.
Uma mágoa que continuamos alimentando.
Uma preocupação que levamos para a cama e encontramos novamente quando acordamos.
Durante muito tempo, acho que fui melhor em perceber o que precisava ser feito do que em perceber como eu estava.
Talvez isso aconteça com muitas pessoas acostumadas a resolver problemas.
Eu trabalhava.
Criava meus filhos.
Administrava.
Fotografava.
Vendia.
Planejava.
Fazia contas.
Tomava decisões.
Começava alguma coisa enquanto terminava outra.
A vida continuava funcionando.
E esse é um detalhe importante.
Nem sempre uma alma cansada produz uma vida aparentemente desorganizada.
Às vezes, ela continua cumprindo horários, pagando contas, sorrindo, trabalhando e cuidando de todo mundo.
Por fora, a casa permanece em pé.
Somente quem mora nela começa a perceber que alguma coisa precisa de manutenção.
Hoje consigo olhar para determinados períodos da minha vida e reconhecer sinais que, na época, eu não sabia nomear.
Não preciso transformar cada tristeza em doença.
Nem cada dificuldade em trauma.
A vida dói algumas vezes.
Perdemos pessoas.
Somos decepcionados.
Tomamos decisões erradas.
Confiamos em quem não deveríamos.
Somos injustos e também sofremos injustiças.
Há dias ruins simplesmente porque existem dias ruins.
Foi importante para mim compreender essa diferença.
Sentir dor não significa estar doente.
Uma alma saudável também chora.
Também se decepciona.
Também se cansa.
Também sente medo.
A diferença talvez esteja no que acontece depois.
A tristeza veio morar ou apenas passou pela casa?
O medo começou a participar das decisões?
A mágoa ganhou uma cadeira permanente à mesa?
A decepção com uma pessoa começou a modificar a maneira como enxergo todas as outras?
Essas perguntas me parecem hoje mais importantes do que tentar construir uma vida na qual nada me atinja.
Essa vida não existe.
E, olhando para trás, percebo que algumas das coisas que mais me ensinaram nasceram justamente de períodos que eu jamais escolheria repetir.
Isso não torna o sofrimento bonito.
Não torna justo aquilo que foi injusto.
Não transforma quem me feriu em alguém que precisava me ferir para que eu aprendesse alguma coisa.
Essa é uma romantização da dor na qual não acredito.
O que acredito é diferente:
se algo aconteceu e eu não posso mudar o passado, ainda posso decidir o que farei com aquilo dentro de mim.
Talvez aí comece uma parte importante da saúde da alma.
Não permitir que uma experiência ocupe todos os cômodos.
Essa compreensão também modificou a maneira como passei a olhar para as pessoas.
Minha profissão de fotógrafa me ensinou a observar.
O comércio me ensinou a ouvir.
Durante décadas, pessoas passaram diante de mim.
Algumas para uma fotografia.
Outras para comprar alguma coisa.
Muitas simplesmente paravam no balcão e conversavam.
Aquele balcão ouviu histórias que jamais apareceram numa nota fiscal.
Vi pessoas sorrindo enquanto atravessavam dificuldades enormes.
Vi outras reagirem de maneiras que eu não compreendia e só depois descobri que carregavam problemas dos quais eu nada sabia.
Isso foi me tornando mais cuidadosa com conclusões.
Uma atitude tem contexto.
Uma reação tem história.
Uma emoção também.
Hoje, quando alguma coisa em mim se altera, tento perguntar:
De onde isso está vindo?
Nem sempre a resposta está no acontecimento daquele dia.
Às vezes, o presente apenas encostou em alguma coisa mais antiga.
E há outra descoberta que minha própria vida me obrigou a fazer:
cuidar da alma não acontece apenas quando estamos sofrendo.
Também existe manutenção preventiva.
Quando comecei a investir mais conscientemente em mim, algumas escolhas pareciam pequenas e até desconectadas umas das outras.
Estudar.
Ler.
Buscar autoconhecimento.
Cuidar do corpo.
Aprender caligrafia.
Organizar meus pensamentos.
Escrever.
Prestar atenção às minhas próprias reações.
Rever comportamentos.
Escolher melhor onde colocar meu tempo e minha energia.
Nada disso resolveu magicamente a vida.
Os problemas continuaram existindo.
A reforma continuava.
A loja exigia decisões.
A família continuava sendo uma família real, com suas necessidades.
O mundo não parou para que eu pudesse cuidar de mim.
Mas alguma coisa começou a mudar.
Eu voltei a brilhar.
Hoje gosto dessa expressão porque ela não significa que tudo havia ficado perfeito.
Significa que eu estava novamente presente na minha própria vida.
E uma mulher que volta a estar presente percebe coisas que antes passavam despercebidas.
Percebe o que lhe faz bem.
O que a desgasta.
Quem acrescenta.
O que precisa terminar.
Onde precisa permanecer.
O que ainda precisa aprender.
Comecei também a compreender que nem toda permanência é virtude.
Durante muito tempo somos ensinados a suportar.
A insistir.
A não desistir.
E há enorme valor na perseverança.
Minha vida profissional não teria atravessado tantos anos se eu abandonasse tudo diante da primeira dificuldade.
Mas perseverança e aprisionamento não são a mesma coisa.
Existem ciclos que precisam ser sustentados.
Existem outros que precisam ser encerrados.
Quando decidi deixar o estúdio fotográfico em Alpestre, por exemplo, não estava abandonando uma profissão por incapacidade ou ressentimento.
A fotografia havia me dado muito.
Continuaria presente em minha vida de outras maneiras.
Mas eu já conseguia perceber que aquele ciclo específico precisava terminar para que minha energia pudesse seguir em outra direção.
Encerrar também pode ser uma forma de cuidado.
E talvez uma alma saudável tenha justamente essa mobilidade.
Ela não permanece igual para provar força.
Ela aprende.
Revê.
Reorganiza.
Recomeça.
Foi assim em muitos momentos da minha vida.
Algumas experiências me deixaram cicatrizes.
Outras me deram amigos.
Algumas retiraram certezas.
Outras devolveram esperança.
E muitas fizeram as duas coisas ao mesmo tempo.
Hoje, aos 52 anos, não acredito em uma alma permanentemente equilibrada, imune às tempestades e cheia de respostas.
Seria uma personagem muito cansativa de sustentar.
E certamente não seria eu.
Ainda existem dias em que preciso reorganizar meu País Interior.
Ainda descubro pontos cegos.
Ainda ajusto minhas lentes.
Ainda encontro incoerências.
Ainda preciso parar e perguntar o que determinada emoção está tentando me mostrar.
Mas talvez saúde seja justamente poder fazer isso.
Perceber.
Examinar.
Cuidar.
E continuar.
Também aprendi a valorizar muito mais aquilo que antes poderia parecer pequeno.
Uma conversa demorada.
Uma mesa em torno da qual meus filhos permanecem depois que a comida terminou.
Um abraço.
Uma amizade que atravessa o tempo.
Alguém que aparece num dia comum.
O balcão da loja e uma conversa inesperada.
Uma tarde tranquila.
Um caderno aberto.
Uma risada.
Talvez porque, depois de atravessarmos determinadas fases, descobrimos que a vida não é sustentada apenas pelos grandes acontecimentos.
Há pequenas coisas que alimentam a alma diariamente.
E talvez por isso algumas lembranças continuem aquecendo o coração tantos anos depois.
Não porque tenham sido extraordinárias aos olhos de quem estava de fora.
Mas porque, dentro de nós, foram.
Hoje não desejo uma vida sem cicatrizes.
Isso significaria desejar uma vida que eu não vivi.
Desejo outra coisa.
Que minhas cicatrizes não determinem toda a paisagem.
Que aquilo que me feriu não decida sozinho quem eu me torno.
Que uma decepção não me impeça de confiar novamente.
Que um erro não se transforme em identidade.
Que uma perda não apague tudo aquilo que permaneceu.
E que, enquanto eu estiver viva, continue existindo em mim espaço para aprender.
Porque talvez seja esse um dos sinais mais bonitos da saúde da alma:
ela continua viva.
Ainda se encanta.
Ainda aprende.
Ainda muda de ideia.
Ainda pede perdão.
Ainda recomeça.
Ainda consegue agradecer.
Ainda recebe um abraço.
Ainda oferece outro.
E continua florescendo.
Não apesar de ter vivido.
Mas porque continua escolhendo viver.
Processo do País Interior — A Saúde da Alma
Objetivo: perceber o estado da minha arquitetura interior e cuidar dela antes que pequenas fissuras ocupem espaços maiores.
1. Observe os sinais. Como está minha alma hoje? Leve? Cansada? Agitada? Endurecida? Esperançosa?
Não é preciso julgar a resposta. Primeiro, apenas reconhecê-la.
2. Procure a origem.O que está alimentando aquilo que estou sentindo?
Nem toda emoção começou hoje. Às vezes, o presente apenas tocou em algo que já estava ali.
3. Observe o que está ocupando espaço demais.Existe alguma dor, medo, mágoa ou preocupação começando a ocupar outros cômodos do meu País Interior?
4. Faça manutenção.O que tem fortalecido minha alma ultimamente? O que tenho abandonado que me fazia bem?
5. Examine as permanências. Estou perseverando porque ainda existe sentido ou permanecendo apenas porque tenho medo de encerrar um ciclo?
6. Aprenda sem romantizar a dor.Não preciso agradecer pelo que me feriu. Mas, se não posso mudar o que aconteceu, posso perguntar:
O que faço agora com aquilo que vivi?
7. Preserve espaço para a vida.Ainda consigo aprender, amar, agradecer, rir, confiar, criar e recomeçar?
Enquanto houver espaço para isso, alguma coisa dentro de nós continua florescendo.
Princípio final
A saúde da alma não consiste em viver sem dores, mas em não permitir que uma dor se transforme em dona de toda a casa.
Marta Braatz
Agosto, 2026.
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