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Capítulo 16 - Responsabilidade

  • há 3 dias
  • 11 min de leitura

Capítulo 16 - Responsabilidade

Durante muito tempo, para mim, responsabilidade significou uma coisa bastante simples:

se precisa ser feito, faça.

Demorei anos para compreender que essa definição estava incompleta.

Há coisas que precisam ser feitas por mim.

Há coisas que preciso ensinar alguém a fazer.

Há coisas que posso ajudar a fazer.

E há coisas que, mesmo tendo capacidade para resolver, simplesmente não são minhas.

Aprender essa diferença talvez tenha sido uma das partes mais importantes do meu amadurecimento.

Mas eu não comecei por aí.

Comecei muito cedo, quando responsabilidade ainda se confundia com obediência.

A galinha

Eu tinha aproximadamente oito anos quando meu irmão Jacó nasceu.

Minha mãe estava no hospital.

Em algum momento, meu pai me deu uma tarefa: eu deveria matar uma galinha para fazer uma sopa.

Hoje, olhando para trás, penso que meu pai talvez nem tenha se dado conta do tamanho daquilo que estava pedindo.

Naquele contexto, havia uma casa funcionando, filhos, uma esposa no hospital, um bebê que acabara de nascer e coisas que precisavam ser feitas.

Ele pediu.

E eu fui fazer.

Eu já tinha visto minha mãe matar galinhas e procurei repetir aquilo que havia observado.

Peguei o machado.

Mas, na hora de bater, virava a cabeça.

Não queria olhar.

Talvez justamente por isso tenham sido necessárias várias machadadas até que eu conseguisse matar o pobre animal.

Foi difícil.

Muito difícil.

Mas havia uma ordem.

E, na cabeça daquela menina, eu precisava cumprir.

Depois fui falar com meu pai.

Disse:

— Nunca mais me peça para fazer isso. Não farei.

E nunca mais fiz.

Hoje consigo enxergar duas coisas naquela cena.

A primeira é a menina que assumiu uma tarefa porque acreditava que precisava cumpri-la.

A segunda talvez seja ainda mais importante:

depois de carregar aquela responsabilidade, ela percebeu que não a aceitaria novamente.

Eu ainda não sabia falar sobre limites.

Mas já começava a descobrir que responsabilidade e obediência não eram exatamente a mesma coisa.

“Isso vai dar problema”

Meus pais eram bravos.

E eu gostava de paz.

Por isso, quando meu pai deixava uma tarefa e alguém não fazia, muitas vezes eu olhava para aquilo e pensava:

Isso vai dar problema.

Então ia lá e fazia.

Não sei identificar exatamente quando começou o meu conhecido:

“Deixa que eu resolvo. ”

Talvez não tenha começado num único dia.

Foi se formando.

Eu observava muito.

Via as pessoas consertando coisas.

Prestava atenção em como faziam.

Memorizava.

Depois tentava.

Troquei torneiras.

Mexi em tomadas.

Em luz.

Em chuveiro.

Aprendia olhando.

Hoje sei que algumas dessas tarefas nem deveriam estar nas mãos de uma criança. Havia riscos que eu não tinha condições de dimensionar.

Mas aquela era a realidade.

E, quando alguma coisa precisava ser resolvida, eu procurava descobrir como.

Talvez uma das recompensas mais fortes daquele comportamento nem tenha sido elogio.

Era outra:

uma guerra a menos.

Problema resolvido.

Casa funcionando.

Paz preservada.

E assim a pequena “MacGyver” foi entrando em ação.

O apelido, aliás, não surgiu por acaso.

Eu assistia a todos os episódios de MacGyver.

E tive ali um bom professor.

Os professores que encontrei pelo caminho

O que me faltava na vida, muitas vezes eu procurava ao meu redor.

Nas pessoas.

Na televisão.

Nos filmes.

Nas histórias.

Eu observava MacGyver encontrar soluções com aquilo que tinha disponível.

Observava detetives procurando pistas.

Assistia a 007.

Via filmes.

Novelas.

E não observava apenas aquilo que as pessoas faziam.

Observava comportamentos.

Consequências.

Contradições.

Reações.

Comecei a perceber padrões.

Com o tempo, fiquei tão acostumada a acompanhar as pistas de uma história que muitas vezes conseguia prever o que aconteceria num filme.

Anos depois, quando assistia com meus filhos, isso virava até motivo de brincadeira.

Eduardo ficava bravo porque eu adivinhava o que aconteceria.

Parecia que eu tinha escrito o roteiro.

Eu não tinha.

Só estava observando havia muitos anos.

Hoje compreendo que não fui aluna apenas daquilo que aconteceu comigo.

Fui aluna daquilo que observei acontecer.

Algumas pessoas me ensinavam:

isso eu quero aprender.

Outras, sem saber, ensinavam:

isso eu não quero repetir.

Foi assim também com meus pais.

Recebi deles muitas coisas boas.

Valores que permanecem comigo.

Aprendizados que agradeço.

Mas eles eram seres humanos.

Também erravam.

E alguns erros doeram.

Em determinado momento da minha vida, comecei a tomar uma decisão interior:

eu não seria uma réplica nem do meu pai, nem da minha mãe.

Eu aprenderia com os acertos deles.

E também aprenderia com os erros.

Não para me considerar melhor.

Mas para tentar fazer melhor quando chegasse a minha vez.

O toco

Eu deveria ter uns doze ou treze anos.

Meu pai havia cortado uma árvore perto de casa e ficara o toco.

Ele queria retirá-lo porque pretendia usar aquele espaço para outra coisa.

Então deu a tarefa ao meu irmão Roger.

Meu pai saiu para trabalhar.

E o serviço não começava.

Eu olhava para o toco.

Olhava para o tempo passando.

E conhecia meu pai.

Pensei:

Isso vai dar problema.

Então comecei.

Cavei ao redor do toco.

Cavei mais.

E mais.

Fiz um buraco enorme.

Cortei as raízes que conseguia encontrar.

Tentava balançar o tronco.

Ele mexia, mas não saía.

Eu não entendia.

Tinha trabalhado.

Tinha cavado.

Tinha cortado raízes.

Mas aquele toco continuava preso.

Até que meu pai chegou.

Ele estava bravo porque a tarefa ainda não havia sido concluída.

Tentei explicar que não conseguia tirar o toco.

Em algum momento, já irritada, respondi:

— Então vem tu fazer.

O que aconteceu depois foi doloroso.

Meu pai entendeu minha resposta como desrespeito e decidiu me bater.

Naquela época, quando ele ia nos bater, mandava buscar um galho de pessegueiro.

Naquele dia fui buscar.

Mas alguma coisa em mim havia chegado ao limite.

Escolhi um galho grande.

Entreguei a ele, olhei em seus olhos e disse que poderia bater, mas que aquela seria a última vez.

Ele bateu.

E eu permaneci ali.

Até que o galho feriu minha pele e começou a sair sangue.

Então ele parou.

Fui para o banheiro.

Fechei a porta.

Foi debaixo do chuveiro que chorei.

Chorei de dor.

Mas havia outra coisa doendo ainda mais.

Eu tinha tentado.

Havia um enorme buraco ao redor daquele toco provando isso.

Por que ninguém havia perguntado por que eu não conseguira?

Mais tarde, meu pai foi olhar o serviço.

Mexeu no toco.

Observou.

Pegou o machado e encontrou o problema.

Ainda havia uma raiz central segurando o tronco.

Cortou.

O toco saiu.

Eu olhei aquilo.

Era só aquela raiz.

Eu não sabia.

Ele sabia.

Hoje existe uma cicatriz física daquele dia.

Mas a maior aprendizagem não ficou na pele.

Ficou numa pergunta:

quando alguém não consegue fazer alguma coisa, será que antes de condenar não deveríamos descobrir onde está a dificuldade?

A raiz que o outro ainda não consegue enxergar

Aquele episódio me acompanhou de maneiras que só compreendi muito mais tarde.

Quando alguém não conseguia terminar um trabalho, eu não queria começar gritando.

Preferia olhar.

O que você já fez?

Onde parou?

Qual dificuldade encontrou?

O que está faltando?

Porque às vezes não falta vontade.

Falta conhecimento.

Às vezes existe uma raiz central que a pessoa ainda não aprendeu a enxergar.

Quem possui mais experiência talvez consiga encontrá-la rapidamente.

Mas responsabilidade, para mim, passou a significar também ensinar onde procurar.

Talvez justamente porque tantas vezes aprendi observando, quando chegou minha vez de orientar outras pessoas, procurei mostrar o caminho das pedras.

Eu não queria apenas distribuir tarefas.

Queria distribuir competência.

Um tijolo e um registro

Quando Jacó ainda era pequeno, havia um registro do chuveiro que ele não alcançava.

Coloquei um tijolo para que pudesse subir e abrir sozinho.

Era uma solução simples.

Ele não precisava chamar alguém todas as vezes.

Podia aprender a se virar.

Um dia, porém, ele se desequilibrou ou alguma coisa aconteceu e o registro quebrou.

E lá fui eu.

Procurei o material.

Fui à cidade comprar o que precisava.

Voltei.

Quebrei a parede.

Cortei os canos.

Consertei.

Depois ainda havia o buraco.

Arrumei cimento e tentei fechar.

Ficou perfeito?

Claro que não.

Eu era uma criança rebocando uma parede.

Mas o problema estava resolvido.

Meu pai viu.

Não disse nada.

E eu senti alívio.

Uma guerra a menos.

Hoje, porém, quando lembro dessa história, não penso apenas na menina que consertou o chuveiro.

Penso também no tijolo.

Porque antes de o registro quebrar, havia uma intenção muito simples:

Jacó precisava aprender a fazer sozinho.

Essa característica me acompanhou.

Eu resolvia muitas coisas.

Mas também colocava todos para funcionar.

Busca a linha e a agulha

Anos depois, meu filho Eduardo chegou da escola com um problema.

— Mãe, minha mochila rasgou.

Eu poderia ter pegado a mochila e costurado.

Seria rápido.

Mas disse:

— Busca a linha e a agulha.

Ele trouxe.

Mostrei como fazia.

Ensinei os pontos.

Comecei e deixei que continuasse.

Daquela vez em diante, quando a mochila descosturava, ele já não precisava trazer o problema para a mãe resolver.

Ia buscar as ferramentas.

E resolvia.

Depois começou a costurar outras coisas que estragavam.

Anos mais tarde, já na faculdade, chegou o momento em que precisou aprender a dar pontos.

E ele me contou:

— Mãe, é igual àquele que tu me ensinou para costurar a mochila.

Aquela pequena aula doméstica havia atravessado os anos.

Eu não tinha como saber, quando mandei um menino buscar linha e agulha, onde aquele conhecimento seria usado no futuro.

Estava apenas ensinando meu filho a resolver um pequeno problema.

Mas talvez responsabilidade seja construída exatamente assim.

Em coisas pequenas.

Fazer pelo outro nem sempre é cuidar

Demorei para compreender isso com toda a clareza.

Quando amamos alguém, existe uma tentação de facilitar.

Resolver.

Poupar.

Fazer mais rápido.

Mas, se fazemos sempre pelo outro aquilo que ele já tem condições de aprender, podemos estar ajudando no presente e atrapalhando o futuro.

Por isso comecei a perceber que existem etapas.

Quando alguém ainda não consegue, fazemos.

Quando está aprendendo, fazemos junto.

Quando já pode aprender, ensinamos.

E quando já sabe...

deixamos fazer.

Isso vale para filhos.

Irmãos.

Funcionários.

Equipes.

Talvez até para amizades.

Responsabilidade não é criar pessoas que sempre precisem voltar até nós.

É também ajudar a formar pessoas capazes de caminhar sem nós.

Hoje olho para meus irmãos e vejo homens capazes de resolver problemas que eu talvez nem soubesse resolver.

E isso é bom.

Muito bom.

O aluno não precisa permanecer abaixo do professor para provar que o professor ensinou bem.

Talvez seja justamente o contrário.

Quando a responsabilidade vira identidade

Mas existe um risco para quem aprende cedo a resolver.

A pessoa começa a ser procurada.

“Chama ela. ”

“Ela sabe. ”

“Ela dá um jeito. ”

“Deixa com ela. ”

E, pouco a pouco, podemos confundir duas perguntas:

Eu consigo resolver?

e

Isso é minha responsabilidade?

Elas não são iguais.

Eu posso ter capacidade para fazer algo que pertence ao outro.

Posso saber como resolver uma situação que outra pessoa precisa aprender a enfrentar.

Posso perceber antes o problema.

Posso até conhecer a provável consequência.

Ainda assim, isso não significa que tudo deva vir parar nas minhas mãos.

Essa talvez tenha sido uma aprendizagem muito mais tardia.

A menina aprendeu:

se precisa ser feito, faça.

A mulher precisou acrescentar:

primeiro descubra se realmente lhe cabe fazer.

Responsabilidade tem endereço

Hoje gosto de pensar que responsabilidade precisa ter endereço.

Existe aquilo que é meu.

Minhas escolhas.

Minhas palavras.

Minhas atitudes.

Meus compromissos.

Aquilo que prometo.

Aquilo que faço com os recursos que recebo.

Minha maneira de tratar as pessoas.

Minha reação diante das circunstâncias.

Mas existem coisas que pertencem ao outro.

As escolhas dele.

As consequências delas.

O amadurecimento dele.

A decisão de aprender ou não.

Posso ensinar.

Posso aconselhar.

Posso oferecer ferramentas.

Posso mostrar onde talvez exista uma raiz escondida.

Mas não posso viver a vida do outro.

E assumir aquilo que pertence a alguém nem sempre é responsabilidade.

Às vezes é justamente impedir que ele desenvolva a própria.

Culpa não é responsabilidade

Também aprendi a separar duas coisas que durante muito tempo podem caminhar misturadas.

Culpa e responsabilidade.

A culpa frequentemente pergunta:

Quem errou?

A responsabilidade pergunta:

O que precisa ser feito agora?

Se fui eu quem errou, preciso reconhecer.

Corrigir o que for possível.

Pedir desculpas quando necessário.

Aprender.

Mas permanecer indefinidamente me castigando não conserta aquilo que aconteceu.

Responsabilidade olha para a verdade sem precisar morar para sempre no erro.

E também não aceita carregar culpas que pertencem a outras pessoas.

Talvez amadurecer seja aprender a fazer esse inventário com honestidade:

Isso foi meu.

Isso não foi.

Aqui eu poderia ter feito melhor.

Aqui fiz o que era possível com o conhecimento que tinha.

Aqui preciso reparar.

Aqui preciso simplesmente seguir.

O que termina em mim

Quando penso na educação que recebi, não desejo julgá-la apenas com os olhos de hoje.

Meus pais também foram formados por outras pessoas.

Receberam seus próprios modelos.

Tinham limitações.

Tinham histórias que eu talvez nunca tenha conhecido inteiramente.

Meu pai possuía muitas qualidades.

Minha mãe também fazia aquilo que sabia fazer dentro das próprias condições.

Mas compreender isso não significa reproduzir tudo.

Em algum momento, cada geração recebe uma herança e precisa decidir o que fará com ela.

Algumas coisas merecem ser preservadas.

Outras podem ser aperfeiçoadas.

E algumas precisam terminar.

Eu também errei.

Também perdi a paciência.

Também usei formas de correção que hoje talvez conduzisse de outra maneira.

Não me tornei diferente dos meus pais de uma hora para outra.

Eu estava aprendendo.

Continuo aprendendo.

Mas havia uma decisão:

não quero simplesmente repetir.

Quero observar.

Pensar.

Escolher.

Melhorar aquilo que estiver ao meu alcance.

Talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de um adulto:

não transformar a própria história numa sentença para a próxima geração.

A escola que nunca terminou

Não tive um único professor.

Tive muitos.

Alguns sabiam que estavam me ensinando.

Outros nunca souberam.

Aprendi vendo alguém fazer um reparo.

Aprendi com meu pai.

Com minha mãe.

Com pessoas ao redor.

Com livros.

Com filmes.

Com personagens.

Com erros.

Com acertos.

Com consequências.

Até numa novela eu observava comportamento.

Fui reunindo peças.

Não para copiar alguém inteiro.

Mas para construir minha própria maneira de viver.

O que me faltava, eu procurava.

O que eu aprendia, muitas vezes ensinava.

O que eu percebia que machucava, procurava não repetir.

Nem sempre consegui.

Mas continuei estudando.

A faculdade da vida não entregava diploma.

Entregava situações.

E cada situação parecia perguntar:

O que você fará com aquilo que já aprendeu?

O preço de aprender

Hoje consigo olhar para trás sem precisar transformar minhas dificuldades em medalhas.

Algumas aprendizagens custaram caro.

Eu preferiria ter aprendido certas coisas de maneira mais suave.

Preferiria que, diante daquele toco, alguém tivesse chegado e perguntado:

— Onde está a dificuldade?

Preferiria que algumas responsabilidades tivessem sido acompanhadas de orientação.

Preferiria não carregar algumas cicatrizes.

Mas a vida não pode ser reescrita para produzir a infância ideal que gostaríamos de ter vivido.

O que posso fazer é decidir o destino daquilo que recebi.

A dor pode virar amargura.

Pode virar repetição.

Ou pode virar informação.

No meu caso, procurei transformá-la em pergunta:

Como posso fazer diferente quando chegar a minha vez?

Não porque eu fosse melhor.

Mas porque agora sabia alguma coisa que antes não sabia.

E conhecimento também traz responsabilidade.

Responsabilidade não é carregar tudo

Hoje, depois de tantos anos, minha definição mudou.

Responsabilidade não é fazer tudo.

Não é controlar tudo.

Não é impedir que os outros errem.

Não é carregar adultos no colo.

Não é dizer sim a qualquer pedido apenas porque tenho capacidade de atender.

Não é resolver todos os problemas que consigo enxergar.

Responsabilidade é muito mais precisa.

É reconhecer:

isso me pertence.

E então cuidar.

Se preciso aprender, aprendo.

Se preciso pedir ajuda, peço.

Se preciso ensinar, ensino.

Se preciso reparar, reparo.

Se preciso cumprir, cumpro.

Se preciso dizer não, digo.

E, quando alguma coisa pertence ao outro, posso até permanecer ao lado...

mas preciso permitir que ele carregue.

Talvez ainda exista um toco

Às vezes penso naquele velho toco.

Durante horas eu cavei ao redor dele.

Cortei tudo o que conseguia enxergar.

Fiz força.

Balancei.

E nada.

Havia uma raiz escondida.

Eu simplesmente não sabia.

Hoje essa lembrança me ensina outra coisa.

Diante de alguém que está tentando e ainda não conseguiu, talvez a primeira pergunta não deva ser:

“Por que você não fez? ”

Talvez seja:

“Onde está a raiz? ”

Às vezes a pessoa precisa de cobrança.

Às vezes precisa de orientação.

Às vezes precisa de uma ferramenta.

Às vezes precisa tentar sozinha.

Responsabilidade também é discernir a diferença.

Porque ensinar alguém a encontrar a raiz pode ser muito mais transformador do que arrancar o toco por ele.

E talvez essa tenha sido uma das grandes mudanças da minha vida.

A menina pensava:

Deixa que eu resolvo.

A mulher aprendeu a perguntar:

O que me cabe aqui?

Resolver?

Ensinar?

Acompanhar?

Esperar?

Ou simplesmente devolver ao outro aquilo que sempre foi responsabilidade dele?

Hoje sei que não preciso provar minha força carregando tudo.

Também não preciso ser indispensável.

Se alguém aprendeu comigo e depois já não precisa de mim para fazer aquilo, não perdi importância.

O ensino cumpriu sua função.

Talvez responsabilidade seja isso:

fazer bem aquilo que nos pertence,

ensinar quando nos cabe ensinar,

aprender quando ainda não sabemos,

reparar quando erramos,

e ter humildade suficiente para não tomar para nós a vida que pertence ao outro.

Porque nem todo problema que consigo resolver é meu.

Nem toda carga que consigo suportar precisa permanecer sobre meus ombros.

E nem toda pessoa que amo precisa depender de mim para que eu continue amando.

Às vezes, a maior prova de que cumprimos nossa responsabilidade é justamente esta:

eles aprenderam a caminhar sem precisar que continuemos segurando sua mão.

E nós conseguimos vê-los caminhar...

sem correr atrás para carregar aquilo que já sabem levar.

Marta Braatz

11 de agosto de 2026.

 

 
 
 

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