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“Há uma diferença entre estar sozinha e estar consigo mesma.”
Durante grande parte da minha vida, quase nunca estive fisicamente sozinha.
Nasci em uma família de cinco filhos. Sou a segunda.
Na infância, dormíamos em uma cama de casal, eu e minha irmã Elvira. Depois nasceu Jacó, o quarto filho da família, e seu berço foi colocado em nosso quarto. Ainda viria Junior, o caçula, que ficaria no quarto dos meus pais.
Jacó, porém, nem sempre permanecia no berço.
Muitas vezes eu o colocava para dormir conosco, do meu lado esquerdo, e passava o braço sobre seu pequeno corpo para protegê-lo, para que não caísse da cama.
É curioso olhar para essa imagem tantos anos depois.
Três crianças dividindo uma cama de casal.
Eu também era apenas uma menina.
Mas até durante o sono havia alguém ao meu lado.
E, de alguma maneira, eu já cuidava.
Depois crescemos.
Casei.
Vieram os filhos.
E minha vida continuou sendo povoada de gente.
Família, trabalho, clientes, funcionários, responsabilidades, decisões, problemas para resolver, pessoas para ouvir, orientar e proteger.
Sempre houve alguém por perto.
Talvez por isso seja tão interessante perceber que, embora eu quase nunca estivesse fisicamente sozinha, desde menina eu procurava a solitude.
Eu apenas não conhecia esse nome.
Por volta dos onze anos, comecei a escrever.
Meu primeiro diário era um pequeno caderno de cinquenta folhas, de capa azul.
Eu escrevia à noite, escondida, quando ninguém estava olhando. E guardava aquele caderno em um lugar secreto.
Ali registrava o meu dia, acontecimentos, pensamentos, sentimentos.
Hoje percebo que aquele diário era muito mais do que um lugar onde uma menina guardava segredos.
Era um lugar de encontro.
Eu conversava comigo mesma.
Sem saber, já procurava o silêncio para organizar o que existia dentro de mim.
E esse hábito me acompanhou.
Quando me casei, continuei tendo meus cadernos. Um deles ficava no criado-mudo, ao lado da cama.
Naquela época, eu era mãe, empresária, dona de casa e vivia cercada por tarefas.
Esperava a casa silenciar.
Muitas vezes isso só acontecia de madrugada.
Então, quando alguma ideia surgia, quando alguma coisa precisava ser compreendida, quando uma preocupação insistia em permanecer ou simplesmente quando eu queria registrar algo bom, eu escrevia.
Escrevia ideias.
Dores.
Projetos.
Perguntas.
Respostas.
Pensamentos que talvez ainda nem fossem respostas, mas que precisavam encontrar algum lugar.
O papel me escutava.
E, enquanto eu escrevia, eu também aprendia a me escutar.
Com o passar dos anos, fui descobrindo outras maneiras de fazer a mesma coisa.
Depois da separação, o silêncio ganhou novos significados.
Ana e eu morávamos juntas e tínhamos uma ligação muito forte. Conversávamos muito, dividíamos a rotina, as preocupações, as alegrias e também períodos difíceis.
Nos dias frios de inverno, muitas vezes dormíamos juntas.
Havia entre nós uma cumplicidade construída no cotidiano, dessas que não precisam ser explicadas porque vão sendo formadas pelos dias.
Mas filhos crescem.
E precisam voar.
Um dia, minha filha me perguntou:
— Mãe, tu te deu conta de que, pela primeira vez na vida, vai morar sozinha? Vai dormir sozinha?
Eu olhei para ela e respondi:
— Sim. Já me dei conta.
Eu havia me dado conta.
E talvez por isso já estivesse me preparando.
Não queria que minha filha saísse para construir a própria vida carregando a preocupação de que a mãe ficaria mal.
Também não queria simplesmente dizer aos meus filhos que eu estava bem.
Eu queria estar bem.
Existe uma diferença enorme entre parecer forte para tranquilizar quem amamos e construir dentro de nós condições verdadeiras para continuar vivendo bem.
Eu precisava fazer a segunda coisa.
A menina que havia dividido uma cama de casal com os irmãos, a mulher que se casara, a mãe que tivera os filhos por perto, a mulher que depois da separação ainda dividira tantas noites e conversas com a filha, um dia entraria no quarto...
e a cama seria somente dela.
O ninho estava ficando vazio.
Mas eu não queria transformar o voo dos meus filhos em abandono.
Eu havia visto muitas partidas ao longo da vida.
Meus irmãos cresceram e foram seguindo seus caminhos.
Meus filhos também fariam isso.
Era o curso natural da vida.
Durante muitos anos eu havia sido a mana que cuidava, a mulher que resolvia, a mãe que protegia.
Mas proteger também significa permitir que o outro vá.
E talvez existisse uma aprendizagem ainda mais difícil:
permitir que fossem sem ir junto.
Foi nesse período que surgiu a horta.
A ideia inicial era fazer uma horta comunitária.
Convidei pessoas.
Acharam a ideia bonita.
Mas, no fim, a horta comunitária ficou praticamente entre mim e a terra.
E foi uma bênção.
Eu passava muito tempo no mesmo ambiente entre a loja e a casa. Precisava sair daquele espaço, mexer o corpo, tocar a terra, ocupar as mãos.
Então comecei a plantar.
Ia durante a semana.
Ia nos finais de semana.
Preparava a terra, plantava, cuidava, observava.
Voltava para casa suada, suja de terra e cansada.
Mas era um cansaço bom.
A terra parecia receber aquilo que eu precisava descarregar sem fazer perguntas.
Depois começaram a aparecer os resultados.
Alfaces.
Temperos.
Brócolis.
Cebolinhas.
Verduras.
Aquilo que um dia havia sido apenas terra preparada começou a produzir alimento.
Minha filha vinha para casa e dizia:
— Vamos lá na horta.
E sugeria coisas para eu plantar.
Hoje percebo que aquela horta cultivava muito mais do que verduras.
Enquanto eu cuidava dela, alguma coisa também estava sendo cultivada em mim.
A horta cumpriu seu tempo.
Durou pouco mais de um ano.
Depois vieram outras circunstâncias, eu já não conseguia cuidar de tudo e encerrei aquele ciclo.
E estava tudo bem.
Algumas coisas não entram em nossa vida para permanecer.
Entram para nos atravessar durante o tempo necessário.
A horta havia cumprido sua missão.
Quando voltei integralmente para o meu cotidiano entre a loja, a casa e o meu pátio, alguma coisa já tinha mudado.
Eu sabia ficar comigo.
Talvez sempre tivesse sabido.
Só estava descobrindo isso conscientemente.
Aprendi também a respirar para desacelerar.
Fui orientada a contemplar.
Contemplar o pôr do sol.
A lua.
O jardim.
A árvore.
O dia amanhecendo.
E fui percebendo que contemplar não é simplesmente olhar.
É permanecer.
É permitir que os olhos estejam onde o corpo está.
Aos poucos, o silêncio deixou de parecer ausência de alguma coisa.
Tornou-se presença.
Hoje consigo entrar em casa e não ligar a televisão.
Não ligar o rádio.
Não procurar algum ruído apenas para preencher o ambiente.
Faço minhas coisas em silêncio.
E foi justamente numa manhã comum que percebi o quanto isso havia se tornado parte de mim.
Eu estava preparando a água para o chimarrão.
Abri a torneira para encher a chaleira elétrica.
E ouvi a água caindo.
Depois liguei a chaleira.
E ouvi o som dela aquecendo.
Continuei fazendo minhas coisas e percebi que estava escutando cada pequeno som daquela manhã.
Então pensei:
Quantas pessoas ainda conseguem ouvir isso?
Não porque os sons não existam.
Mas porque talvez haja barulho demais.
Barulho do lado de fora.
E, muitas vezes, barulho do lado de dentro.
Naquela manhã não havia nada extraordinário acontecendo.
Uma mulher preparava água para o chimarrão.
Só isso.
Mas eu estava inteira ali.
Presente.
Talvez essa seja uma das maiores dádivas que a solitude me trouxe:
a capacidade de habitar o momento em que estou.
Meu momento preferido continua sendo o domingo de manhã.
Gosto de acordar cedo, de preferência quando ainda está escuro.
Sento-me para tomar chimarrão e observo lentamente o dia nascer.
A cidade ainda está silenciosa.
Lá embaixo, na direção de Águas Claras, há pessoas que criam galinhas. É relativamente longe da minha casa, mas, quando tudo está quieto, consigo ouvir os galos anunciando a manhã.
E aquilo me faz bem.
Às vezes minhas gatas vêm e se acomodam sobre mim.
Elas fazem parte daquele momento.
Não substituem pessoas.
São animais, companheiras silenciosas daquele pequeno universo.
Olho o jardim.
Olho minha árvore.
Observo a luz mudando.
Escuto os sons que aparecem.
E não preciso que aconteça nada.
Durante muitos anos da minha vida, estar bem parecia estar ligado a fazer.
Resolver.
Produzir.
Proteger.
Administrar.
Ensinar.
Trabalhar.
Construir.
A solitude me ensinou outra forma de existência:
simplesmente estar.
E descobri que existe uma diferença profunda entre solidão e solitude.
A solidão pode ser a dor de sentir falta de alguém.
A solitude é conseguir permanecer na própria companhia sem precisar fugir de si.
Uma fala de ausência.
A outra pode falar de presença.
Não significa que eu não precise de pessoas.
Preciso.
Não significa que os animais substituam seres humanos.
Não substituem.
Não significa que eu tenha deixado de amar conversas, encontros, família ou companhia.
Significa apenas que aprendi uma coisa que considero preciosa:
a minha própria companhia também pode ser um lugar bom para estar.
Talvez eu tenha começado a aprender isso naquela menina de onze anos que esperava todos dormirem, retirava do esconderijo um pequeno caderno azul e começava a escrever.
Ela ainda não sabia o que era solitude.
Só sabia que, quando o mundo silenciava, alguma coisa dentro dela conseguia falar.
Décadas depois, continuo fazendo a mesma coisa.
Mudaram os cadernos.
Mudaram as casas.
Mudaram as responsabilidades.
Muitas pessoas chegaram.
Algumas partiram.
Os irmãos cresceram.
Os filhos cresceram.
O ninho mudou.
Mas aquela menina continuou aqui.
Agora ela pode escrever sem esconder o caderno.
Pode sentar no balanço.
Pode contemplar sua árvore.
Pode mexer na terra.
Pode ouvir uma chaleira aquecendo.
Pode escutar um galo distante anunciando que outro dia está começando.
E pode permanecer em silêncio sem sentir que falta alguma coisa.
Porque finalmente compreendeu:
ficar sozinha nunca significou estar abandonada.
Às vezes, significa apenas estar suficientemente em paz para ouvir a própria alma.
E talvez a solitude seja exatamente isso:
quando o silêncio deixa de ser vazioe se transforma em companhia.
Marta Braatz
agosto, 2026.
Processo do País Interior — Solitude
Objetivo: aprender a estar na própria companhia sem transformar o silêncio em abandono nem o recolhimento em fuga.
1. Perceba como você reage ao silêncio.
Quando tudo fica quieto, você descansa ou imediatamente procura algum ruído?
2. Crie pequenos espaços de encontro consigo.
Não precisam ser grandes retiros.
Um caderno.
Uma caminhada.
Um café.
Um chimarrão.
Um jardim.
Alguns minutos sem telas.
3. Observe antes de preencher.
Nem todo vazio precisa ser ocupado imediatamente.
Alguns espaços precisam permanecer vazios por algum tempo para que possamos descobrir o que realmente cabe neles.
4. Escute o cotidiano.
Água.
Vento.
Pássaros.
Sua própria respiração.
Presença também pode começar pelas coisas pequenas.
5. Escreva.
Não para produzir um texto bonito.
Para conversar consigo.
Às vezes uma pergunta se torna mais clara quando precisa atravessar a mão antes de chegar ao papel.
6. Cultive alguma coisa.
Pode ser uma planta, um hábito, um estudo, um projeto.
Solitude não precisa ser passividade.
Ela também pode produzir vida.
7. Não transforme pessoas em remédio contra o silêncio.
Relacionamentos são encontro, não anestesia.
8. Também não transforme a solitude em fuga.
Se o recolhimento está impedindo vínculos, conversas necessárias ou participação na vida, talvez já não seja solitude.
9. Permita que os ciclos terminem.
Algumas pessoas partem.
Alguns projetos acabam.
Algumas fases cumprem sua função.
O fim de uma estação não significa o fim da vida.
10. Pergunte-se:
Quando ninguém está comigo, consigo permanecer comigo?
Princípio final
Solitude não é aprender a não precisar de ninguém. É aprender a não abandonar a si mesma quando ninguém está por perto.
Talvez eu tenha começado a aprender isso aos onze anos, escrevendo escondida num pequeno caderno azul.
Só não conhecia o nome.
Hoje conheço.
Solitude.
A arte de permanecer na própria companhia — e descobrir que, quando todos os outros silêncios chegam, ainda existe dentro de nós uma voz, uma presença, uma vida.
E, no meu caso, uma certeza:
nunca estive verdadeiramente só.
Marta Braatz
agosto, 2026.
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