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Capítulo 1 — O País Interior

  • há 5 dias
  • 10 min de leitura

Capítulo 1 — O País Interior

“Governar uma nação já é um grande desafio. Governar a si mesmo é uma tarefa para a vida inteira. ”

Durante muitos anos procurei entender o que significava amadurecer.

Achei que amadurecer fosse sentir menos. Depois pensei que significasse controlar melhor as emoções. Mais tarde imaginei que chegaria um momento em que eu saberia como agir, não cometeria os mesmos erros e teria finalmente colocado a vida em ordem.

Não aconteceu.

Continuo sentindo. Continuo errando. Continuo descobrindo coisas a meu respeito que, às vezes, eu preferiria não descobrir.

Talvez tenha sido justamente por isso que comecei a compreender o amadurecimento de outra maneira.

Hoje penso que amadurecer é aprender a governar o país que existe dentro de nós.

Essa ideia não nasceu de uma teoria.

Quando olho para minha própria história, percebo quantas vezes uma emoção tomou decisões por mim. Quantas vezes tentei resolver problemas que não estavam sob minha responsabilidade. Quantas vezes achei que compreender uma situação me dava também o poder de modificá-la.

Não dava.

Passei muito tempo querendo organizar territórios alheios enquanto o meu próprio país ainda precisava de atenção.

Foi aos poucos que comecei a enxergá-lo.

Meu país possui quatro grandes estados.

O primeiro é a alma.

É nela que moram a alegria, a tristeza, o medo, a raiva, a esperança, a gratidão e tantos outros sentimentos.

Durante muito tempo pensei que alguns deles fossem inimigos. Que amadurecer significasse deixar de sentir determinadas coisas, controlar as emoções inconvenientes ou impedir que elas aparecessem.

Hoje já não penso assim.

A tristeza pode ajudar a atravessar uma perda.

O medo pode alertar diante de um perigo.

A raiva pode avisar que algum limite importante foi ultrapassado.

A alegria renova as forças e nos lembra de celebrar aquilo que, na correria da vida, poderíamos deixar passar.

Nenhum desses sentimentos precisa ser expulso.

Eles trazem informações.

O problema começa quando uma emoção decide que, porque chegou, também possui o direito de governar.

O segundo estado é a mente.

É ali que vivem a memória, a criatividade, o raciocínio, a inteligência e a imaginação.

Sempre valorizei muito esse território. Gosto de pensar, organizar, procurar soluções, estabelecer relações entre coisas que aparentemente não têm ligação. Muitas vezes foi justamente essa capacidade que me ajudou a atravessar dificuldades, construir projetos e encontrar saídas onde antes eu não conseguia enxergar nenhuma.

Mas a mesma mente que constrói pontes também pode construir prisões.

Ela é capaz de encontrar uma solução extraordinária e, ao mesmo tempo, fabricar argumentos igualmente extraordinários para defender aquilo em que já decidiu acreditar.

Demorei para perceber isso.

Ser capaz de explicar muito bem uma ideia não significa que ela seja verdadeira.

Ter certeza também não.

Inteligência, sozinha, não basta.

O terceiro estado é o corpo.

Talvez seja o mais impossível de ignorar e, ainda assim, um dos que mais tentamos silenciar.

O corpo avisa.

Ele sente o cansaço, a disposição, a dor, a fome, a falta de movimento, a necessidade de descanso. Registra excessos que a mente gostaria de negociar e limites que nossa vontade preferiria ultrapassar.

Durante muito tempo tratei meu corpo como muitas pessoas tratam um funcionário eficiente: enquanto ele dava conta, eu continuava exigindo.

Mas o corpo participa de tudo.

Um corpo exausto altera a maneira como pensamos. A falta de descanso diminui nossa tolerância. O descuido prolongado alcança a alma e a mente.

Aprendi que não era possível falar de equilíbrio deixando de fora justamente o lugar onde toda a minha vida acontecia.

O quarto estado é o espírito.

É nele que encontro propósito.

É onde a fé conversa com a esperança e onde me recordo de que minha existência pertence a algo muito maior do que aquilo que desejo, temo ou compreendo neste momento.

Há perguntas que minha inteligência não consegue responder.

Há acontecimentos que não consigo organizar.

Há momentos em que tudo o que posso fazer é continuar caminhando sem enxergar ainda o desenho completo.

O espírito me lembra disso.

Quando finalmente consegui enxergar esses quatro estados como partes de um mesmo território, surgiu uma pergunta inevitável:

Quem governa tudo isso?

Porque alguém sempre tenta governar.

A raiva já tentou.

O medo também.

A tristeza, algumas vezes.

Minhas certezas talvez tenham sido candidatas particularmente insistentes.

E houve épocas em que eu nem percebia que havia entregado o governo a uma delas.

Sentia, pensava e agia quase no mesmo movimento.

Só depois, quando as consequências chegavam, conseguia olhar para trás e perceber que uma emoção havia assinado um decreto que jamais deveria ter recebido autorização para assinar sozinha.

Foi vivendo — acertando algumas vezes e errando muitas outras — que comecei a compreender que a presidência do meu País Interior não poderia pertencer a nenhuma delas.

Nem mesmo à minha inteligência.

Ela precisava pertencer a algo mais difícil:

à busca sincera pela verdade.

Não a verdade que me favorece.

Não aquela que confirma aquilo que eu já pensava.

Não a versão que me deixa confortável.

A verdade que permanece verdade mesmo quando me contraria.

Aquela capaz de dizer:

Você errou.

Você não sabe tudo.

Isso não lhe pertence.

Você precisa mudar de direção.

Buscar a verdade dessa maneira exige uma coragem diferente.

Porque é relativamente fácil procurar a verdade quando acreditamos que ela confirmará aquilo que já pensamos.

Difícil é continuar procurando quando existe a possibilidade de encontrarmos a nós mesmos do lado errado da história.

E eu já me encontrei.

Mais de uma vez.

Talvez por isso tenha aprendido a importância de uma boa conselheira para essa presidência.

A sabedoria.

Não apenas conhecimento.

Conhecimento pode ser adquirido. Podemos estudar, ler, pesquisar, ouvir pessoas inteligentes e acumular informações durante uma vida inteira.

Sabedoria exige outra coisa.

Exige que aquilo que vivemos não apenas passe por nós.

É preciso olhar.

Refletir.

Reconhecer padrões.

Admitir erros.

Corrigir rotas.

Uma experiência repetida muitas vezes não se transforma automaticamente em sabedoria. Às vezes ela se transforma apenas em um erro muito bem treinado.

A sabedoria começa quando nos dispomos a aprender com aquilo que aconteceu.

E, nesse governo, existe também a consciência.

Gosto de imaginá-la como uma espécie de parlamento interior.

Ela ouve.

Questiona.

Pondera.

Às vezes incomoda.

Principalmente quando gostaríamos de aprovar rapidamente uma decisão que já tomamos por dentro.

Foi a consciência que muitas vezes me obrigou a voltar a uma situação depois que a emoção já havia ido embora.

A raiva passa.

O impulso passa.

Mas então fica aquela pergunta incômoda:

O que eu fiz com aquilo que senti?

Nem sempre gostei da resposta.

Houve momentos em que meu balde emocional transbordou e atingiu pessoas que não eram responsáveis por tudo aquilo que eu carregava.

Reconhecer isso doeu.

Também ensinou.

Porque compreender por que reagi de determinada maneira não apaga a responsabilidade pelo que fiz.

Essa distinção mudou muita coisa dentro de mim:

o contexto explica; a consciência responsabiliza.

E a responsabilidade, embora às vezes pese, também devolve poder.

Se consigo reconhecer onde errei, posso reparar.

Posso conversar.

Posso pedir perdão.

Posso aprender.

Posso tentar fazer diferente quando a vida colocar diante de mim uma situação parecida.

Talvez seja uma das funções mais bonitas da consciência: ela não existe apenas para nos acusar.

Existe para nos permitir corrigir o rumo.

Nesse governo interior, também fui descobrindo a importância das virtudes.

A prudência, quando é preciso esperar antes de agir.

A justiça, quando a minha versão dos fatos tenta me conceder privilégios.

A temperança, quando alguma coisa dentro de mim quer ultrapassar todos os limites.

A fortaleza, quando sei o que precisa ser feito, mas fazê-lo custa.

A humildade, principalmente ela, quando minhas certezas começam a falar alto demais.

E a generosidade, para que o esforço de me proteger não transforme meu coração numa fortaleza onde ninguém mais consegue entrar.

Não penso nessas virtudes como medalhas que alguém conquista e passa a possuir.

Eu as vejo mais como capacidades que precisam ser exercitadas.

Há dias em que algumas estão fortes.

Em outros, parecem ter faltado ao trabalho.

Ainda assim, preciso delas.

Porque nenhum país é governado apenas por boas intenções.

Também aprendi que meu país não existe isolado.

Existem pessoas que atravessam nossas fronteiras e influenciam profundamente a maneira como pensamos.

Gosto de chamá-las de embaixadores.

Algumas encontrei pessoalmente.

Outras chegaram por meio de livros, aulas, conversas ou histórias.

Algumas permaneceram durante muitos anos.

Outras disseram uma única frase e foram embora, sem jamais saber que deixaram alguma coisa dentro de mim.

Com o tempo, porém, compreendi que nem toda pessoa que fala com segurança merece uma cadeira na sala de decisões.

Nem toda pessoa que admiro possui credenciais para me aconselhar em tudo.

Nem toda pessoa que concorda comigo está me fazendo bem.

E nem toda pessoa que me contraria está contra mim.

Passei a observar outras credenciais.

Coerência.

Experiência acompanhada de reflexão.

Humildade para reconhecer que não sabe.

Coragem para dizer uma verdade sem transformá-la em crueldade.

E, sobretudo, os frutos.

Quando possível, gosto de olhar para aquilo que os princípios de uma pessoa produzem em sua própria vida.

Isso não significa procurar pessoas perfeitas.

Elas não existem.

Significa apenas lembrar que visibilidade não é credencial.

Popularidade não é sabedoria.

Convicção não é verdade.

Vivemos num tempo em que milhares de vozes conseguem atravessar nossas fronteiras todos os dias.

Elas entram pela tela do celular, pelas notícias, pelos vídeos, pelas conversas, pelas opiniões repetidas tantas vezes que começam a parecer fatos.

Há conhecimento ali.

Há beleza.

Há diversão.

Há pessoas extraordinárias.

E há também muito ruído.

O entretenimento não é inimigo. Descansar, rir e se distrair fazem parte de uma vida saudável.

O perigo talvez esteja em permanecer tão distraído que já não sobre tempo para perceber quem está formando nossos desejos, nossos medos, nossas certezas e nossa maneira de enxergar o mundo.

Por isso escolho com mais cuidado meus embaixadores.

Mas aprendi também uma regra fundamental:

Embaixadores aconselham. Não governam.

Essa talvez tenha sido uma das lições mais difíceis.

Porque existe o outro lado.

Assim como preciso cuidar de quem recebe influência sobre mim, também preciso reconhecer os limites da influência que exerço sobre os outros.

Passei muitos anos tentando governar países que não eram meus.

Às vezes isso vinha de uma intenção que eu considerava boa.

Eu enxergava um problema e queria resolver.

Percebia um risco e queria alertar.

Acreditava ter compreendido alguma coisa e queria fazer o outro compreender também.

Se eu explicasse melhor...

Se insistisse mais um pouco...

Se encontrasse as palavras certas...

Talvez a pessoa enxergasse.

Talvez mudasse.

Talvez fizesse aquilo que, na minha visão, parecia tão evidente.

Mas não era o meu país.

Posso aconselhar.

Posso amar.

Posso alertar.

Posso contar aquilo que aprendi.

Posso estar ao lado.

Mas não posso ocupar a presidência da consciência de outra pessoa.

Assim como ninguém deveria ocupar a minha.

Demorei para compreender quanto cansaço existe em tentar administrar territórios sobre os quais não temos autoridade.

Era um trabalho sem fim.

Enquanto isso, havia um único país sobre o qual eu realmente possuía responsabilidade direta.

O meu.

E nele também existe um exército.

Durante muito tempo gostei da antiga metáfora dos dois lobos.

Um reage alimentado pela fúria, pelo impulso, pelo desejo de atacar ou devolver imediatamente aquilo que recebeu.

O outro também sabe reagir.

Mas procura fazê-lo com sensatez, equilíbrio e serenidade.

Hoje acrescentaria uma coisa a essa imagem.

O primeiro pensamento não é necessariamente uma ordem.

A raiva pode chegar.

A indignação pode chegar.

O medo pode chegar.

Até pensamentos dos quais depois nos envergonhamos podem atravessar nossas fronteiras.

Somos humanos.

O que precisamos observar é aquilo que fazemos depois que eles chegam.

Existe um pequeno espaço entre sentir e agir.

Às vezes ele dura segundos.

Às vezes exige que eu me afaste, fique em silêncio, espere o corpo desacelerar ou reconheça que naquele momento não tenho condições de decidir bem.

É nesse pequeno território que uma parte importante do governo acontece.

Ali escolho qual força será alimentada.

Nem sempre escolhi bem.

Ainda não escolho sempre.

Mas hoje reconheço melhor o campo de batalha.

O exército é necessário.

Há momentos em que precisamos nos defender, estabelecer limites, dizer não, interromper aquilo que nos fere ou lutar por algo que consideramos justo.

Mas força não é sabedoria.

E um país governado permanentemente por seu exército acaba vivendo como se estivesse sempre em guerra.

Por isso meu País Interior também precisa de uma Constituição.

Não uma Constituição escrita em papel.

Princípios.

A verdade.

O respeito.

A honestidade.

A responsabilidade.

O amor.

A coerência.

Eles são mais importantes justamente nos dias difíceis.

É fácil defender o respeito quando ninguém nos desrespeita.

É fácil falar em honestidade quando a verdade não nos custa nada.

É fácil falar em equilíbrio quando estamos tranquilos.

A Constituição se torna necessária quando alguma coisa dentro de nós pede uma exceção.

Quando a raiva diz que, desta vez, temos o direito.

Quando o orgulho argumenta que pedir desculpas seria humilhação.

Quando o medo sugere que é melhor abandonar nossos princípios para evitar uma consequência.

É nesses momentos que descubro se aquilo em que digo acreditar realmente faz parte das leis do meu país.

Talvez equilíbrio seja isso.

Não silêncio.

Não ausência de conflitos.

Não ausência de sentimentos.

Equilíbrio é cada parte ocupando o lugar que lhe pertence.

A alma sente.

A mente pensa.

O corpo sinaliza.

O espírito recorda o propósito.

A sabedoria aconselha.

A consciência examina.

As virtudes ajudam a sustentar as decisões.

Os embaixadores ampliam aquilo que consigo enxergar.

O exército protege as fronteiras quando necessário.

A Constituição estabelece aquilo que não desejo negociar.

E a busca sincera pela verdade permanece na presidência.

Parece organizado quando escrevo assim.

Por dentro, nem sempre é.

Ainda acontecem tempestades.

Às vezes uma emoção cresce demais.

Às vezes a mente constrói uma explicação impecável para alguma coisa que eu simplesmente quero acreditar.

Às vezes escuto o embaixador errado.

Às vezes meu exército se agita.

Às vezes esqueço uma fronteira e tento novamente entrar num país que não é meu.

E minhas certezas continuam, de tempos em tempos, tentando disputar a presidência.

Talvez a diferença seja que hoje reconheço melhor quando isso acontece.

E posso voltar.

Não para um país perfeito.

Desisti dessa ideia.

Quero um país capaz de reconhecer suas crises sem fingir que elas não existem.

Capaz de reparar seus erros.

De escolher melhor quem atravessa suas fronteiras.

De ouvir sem entregar a própria consciência.

De sentir sem transformar sentimento em sentença.

De pensar sem transformar inteligência em arrogância.

De cuidar do corpo sem esquecer a alma.

De cultivar a fé sem abandonar a responsabilidade.

E de reconhecer os próprios erros sem concluir, por causa deles, que não existe possibilidade de mudança.

Talvez amadurecer seja menos grandioso do que imaginei.

Não é chegar ao dia em que finalmente teremos tudo sob controle.

É perceber mais cedo quando alguma coisa saiu do lugar.

E aprender a colocá-la novamente onde pertence.

Durante muito tempo, diante de um conflito, minha atenção se voltava imediatamente para fora.

O que o outro fez?

Por que fez?

Como poderia agir daquela maneira?

Como fazê-lo compreender?

Hoje existe uma pergunta que procuro fazer antes.

Ela não resolve tudo.

Às vezes, inclusive, a resposta incomoda.

Mas devolve minhas mãos ao único governo que realmente me pertence:

Quem está governando o meu país hoje?

 

 
 
 

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