há 17 horas
há 2 dias
Capítulo 10 — Consciência: A Guardiã do País Interior
“Consciência é a luz que permite à alma enxergar a si mesma antes de escolher como agir no mundo. ”
No capítulo anterior, terminei diante de uma árvore.
Uma árvore que esteve por muitos anos diante dos meus olhos e que, de alguma maneira, também esteve por muitos anos dentro dos meus desenhos.
Eu via a árvore.
Via o balanço.
Via as flores.
Via os coqueiros.
Via a casinha.
E, ainda assim, durante muito tempo não percebi a semelhança entre a paisagem que tantas vezes desenhei e aquela que, anos depois, passou a fazer parte da minha vida.
Até que um dia percebi.
Nada havia surgido naquele instante.
A árvore já estava lá.
O desenho também.
Quem mudou fui eu.
Eu consegui enxergar.
Talvez essa seja uma boa maneira de começar a falar sobre consciência.
Acender a luz
Imagine entrar numa casa completamente escura.
Os móveis estão ali.
As portas estão ali.
As paredes estão ali.
Talvez exista uma cadeira bem no meio do caminho.
Mas, enquanto permanecemos no escuro, podemos tropeçar naquilo que já estava diante de nós.
Então alguém acende a luz.
A luz não criou a cadeira.
Não colocou a mesa no lugar.
Não construiu a parede.
Apenas tornou visível aquilo que já existia.
Hoje penso na consciência dessa maneira.
Ela acende luzes.
E nem sempre gostamos de tudo aquilo que aparece quando um cômodo se ilumina.
Às vezes encontramos medo.
Orgulho.
Inveja.
Mágoa.
Contradições.
Intenções que preferiríamos não reconhecer.
Mas também encontramos coisas boas.
Generosidade.
Coragem.
Compaixão.
Lealdade.
Capacidade.
Amor.
Consciência não é uma fiscal procurando defeitos pelos cômodos da alma.
É luz.
E a luz mostra o que está lá.
A pergunta vem depois:
O que farei com aquilo que agora consigo enxergar?
Saber não é a mesma coisa que perceber
Durante muito tempo, talvez eu tenha confundido consciência com conhecimento.
Hoje vejo diferença.
Podemos saber muitas coisas sem permitir que aquilo que sabemos realmente nos alcance.
Uma pessoa pode saber que determinada palavra machucará e, ainda assim, pronunciá-la.
Pode conhecer as consequências de uma escolha e fazê-la mesmo assim.
Pode perceber que está errada e construir uma explicação bastante convincente para continuar.
Pode conhecer uma verdade e preferir outra versão.
Por isso, consciência não é simplesmente possuir informação.
Existe um momento muito mais íntimo.
Aquele em que já não consigo dizer:
“Eu não sabia. ”
Porque agora sei.
E sei que sei.
Esse é um momento importante.
Porque aquilo que ainda não enxergamos pode explicar muitas coisas.
Mas aquilo que passamos a enxergar começa a nos responsabilizar.
Talvez uma das frases mais difíceis que podemos dizer a nós mesmos seja:
Eu sei o que estou fazendo.
Não para nos condenar.
Para nos devolver a escolha.
Algumas luzes demoraram anos
Quando revisito minha história, encontro acontecimentos que compreendi somente muito tempo depois.
Na época, eu estava ocupada vivendo.
Trabalhando.
Criando filhos.
Fotografando.
Administrando.
Resolvendo problemas.
Tomando decisões.
Seguindo.
Algumas experiências só ganharam outro significado quando pude observá-las de uma distância maior.
Isso não significa que hoje eu tenha descoberto “a verdade absoluta” sobre tudo o que vivi.
Seria contraditório depois de escrever sobre pontos cegos.
Significa apenas que hoje possuo informações, maturidade e referências que aquela mulher não possuía.
Consigo perceber coisas que antes não percebia.
E isso vale também para mim mesma.
Talvez essa tenha sido uma das partes mais desconfortáveis — e mais libertadoras — do autoconhecimento.
Porque é relativamente fácil desenvolver consciência sobre os erros dos outros.
Muito mais difícil é permitir que a luz se vire para nós.
Houve situações em que precisei reconhecer:
Aqui eu poderia ter agido melhor.
Em outras:
Eu estava certa no conteúdo, mas talvez não na maneira.
Ou:
Eu estava reagindo a algo maior do que aquilo que havia acabado de acontecer.
E ainda:
Eu estava tentando resolver uma situação ou apenas querendo vencer?
Nem sempre gostei das respostas.
Mas não quero uma consciência que exista apenas para confirmar a imagem que construí de mim.
Quero uma que me ajude a enxergar.
“Eu errei” não é “eu sou um erro”
Existe, porém, um perigo.
Quando começamos a olhar para dentro, podemos confundir consciência com condenação.
Eu já não acredito nisso.
Há uma diferença enorme entre dizer:
Eu errei.
e dizer:
Eu sou um erro.
A primeira frase identifica uma ação.
A segunda transforma a ação em identidade.
Uma permite reparação.
A outra pode construir uma prisão.
O mesmo vale para:
Fiz algo inadequado.
Isso é muito diferente de:
Não presto.
Uma consciência saudável não precisa destruir a pessoa para corrigir um comportamento.
Ela pode simplesmente dizer:
Aqui você precisa voltar.
Aqui precisa pedir desculpas.
Aqui precisa reparar o que for possível.
Aqui precisa aprender.
E então continuar.
Talvez uma consciência amadurecida não seja aquela que acusa mais.
É aquela que enxerga melhor.
A consciência também precisa aprender
Há outra coisa que fui compreendendo com o tempo.
Nossa consciência também é formada.
Família.
Cultura.
Experiências.
Fé.
Educação.
Dores.
Exemplos.
Medos.
Tudo isso participa da maneira como interpretamos o certo, o errado, a culpa, o dever e a responsabilidade.
Por isso, nem tudo aquilo que sentimos como culpa significa necessariamente que somos culpados.
E a ausência de culpa também não prova que estamos certos.
Isso exige humildade.
Se eu já sei que possuo pontos cegos, preciso admitir que até aquilo que parece absolutamente evidente dentro de mim merece, às vezes, ser examinado.
A pergunta então deixa de ser:
“Estou sentindo isso, portanto é verdade? ”
e passa a ser:
“O que estou sentindo corresponde à verdade? ”
Essa pequena diferença protege muito.
Porque sentimentos são reais.
Mas a interpretação que fazemos deles pode estar errada.
A menina que conversava consigo mesma
Quando escrevi sobre o diálogo interior, contei sobre a menina que conversava consigo mesma e chegou a imaginar que talvez houvesse alguma coisa errada com ela.
Hoje olho para aquela menina de outra maneira.
Ela já percebia que existia um mundo dentro dela.
Pensamentos.
Perguntas.
Hipóteses.
Medos.
Desejos.
Lembranças.
Com o tempo, aquela conversa continuou.
Mas a mulher aprendeu a fazer perguntas melhores.
Por que isso me incomodou tanto?
Estou sendo justa?
Eu realmente sei o que aconteceu?
Estou falando a verdade?
Preciso responder?
Quero resolver ou quero vencer?
Nem sempre essas perguntas chegam antes da reação.
Seria bonito dizer que sim.
Não seria verdadeiro.
Algumas vezes a resposta veio primeiro e a consciência chegou depois.
E o depois também ensina.
Talvez eu tenha aprendido parte da prudência justamente porque conheço o custo de algumas reações.
A consciência pode chegar antes.
Mas, quando não chega, espero ao menos ter maturidade para recebê-la depois.
O espelho também precisa apontar para mim
Enquanto escrevo este livro, isso se tornou ainda mais evidente.
Estou revisitando acontecimentos de décadas.
Tenho fotografias.
Cadernos.
Documentos.
Registros.
Memórias.
E, algumas vezes, um registro contradiz a maneira como eu lembrava determinada situação.
Nesses momentos tenho uma escolha.
Posso tentar fazer o documento caber na minha memória.
Ou posso permitir que minha memória seja corrigida.
Tenho preferido a segunda opção.
Porque, se estou escrevendo uma história verdadeira, não posso pedir que o passado proteja minha versão atual.
Também precisei tomar outra decisão.
Existem histórias verdadeiras que não contarei inteiramente.
Existem nomes que não precisam aparecer.
Existem acontecimentos dos quais posso retirar uma reflexão sem expor todas as pessoas envolvidas.
Isso não é esconder minha história.
É consciência de que minha liberdade de contar também produz consequências na vida de outros.
Talvez escrever esteja me ensinando algo que serve para além deste livro:
nem tudo aquilo que posso fazer é necessariamente aquilo que devo fazer.
Consciência antes da palavra
A palavra merece uma atenção especial.
Talvez porque ela tenha uma característica curiosa:
enquanto está dentro de nós, ainda podemos modificá-la.
Depois que sai, passa também a pertencer a quem a recebeu.
Podemos pedir desculpas.
Podemos explicar.
Podemos tentar reparar.
Mas não conseguimos recolher completamente uma palavra que já entrou na história de outra pessoa.
Hoje isso acontece ainda mais rápido.
Uma emoção pode virar mensagem em segundos.
Uma interpretação pode virar acusação.
Uma indignação pode virar publicação.
E aquilo que talvez desaparecesse depois de uma noite de sono pode permanecer registrado por anos.
Por isso, antes de algumas palavras, comecei a valorizar perguntas simples:
É verdade?
Tenho certeza?
Precisa ser dito?
Precisa ser dito agora?
Precisa ser dito por mim?
Essas perguntas não servem para silenciar a verdade.
Servem para impedir que o impulso se vista de verdade e saia falando em nosso nome.
Consciência não elimina emoções
Também não quero construir a imagem de uma pessoa consciente como alguém permanentemente calma, racional e imune às emoções.
Eu não seria um bom exemplo dessa criatura.
Sentimos.
Raiva.
Medo.
Tristeza.
Alegria.
Indignação.
Ciúme.
Vergonha.
Esperança.
Entusiasmo.
A consciência não precisa expulsar essas emoções do País Interior.
Precisa reconhecê-las.
Posso sentir raiva e decidir não ferir.
Posso sentir medo e ainda examinar o caminho.
Posso estar indignada e escolher como agir.
Posso sentir vontade de responder imediatamente e esperar.
Posso estar triste e admitir que preciso de ajuda.
Posso estar orgulhosa e ainda reconhecer que errei.
A emoção informa.
Mas não precisa governar sozinha.
Talvez seja por isso que gosto da imagem da consciência como guardiã do País Interior.
Ela não é rainha.
Não governa tudo.
Não decide sozinha.
Mas permanece atenta.
Observa movimentos.
Acende luzes.
Faz perguntas.
Lembra valores.
E, quando percebe que estamos nos afastando demais de quem desejamos ser, chama de volta.
A consciência e Deus
Minha fé também participa desse processo.
Não como uma resposta pronta para tudo.
Ao contrário.
Quanto mais amadureço, menos sinto necessidade de atribuir automaticamente a Deus cada acontecimento ou cada pensamento que tenho.
Mas a fé me oferece referência.
Há momentos em que minha consciência me leva à oração.
Não para que Deus confirme aquilo que eu já decidi.
Mas para que eu tenha humildade suficiente para perguntar:
E se eu estiver errada?
O que ainda não estou enxergando?
O que esta situação exige de mim?
Talvez a oração mais difícil não seja aquela em que pedimos que alguma coisa aconteça.
Talvez seja aquela em que aceitamos que alguma coisa dentro de nós precise mudar.
Quando a luz acende
Quanto mais consciência adquirimos, menos conseguimos voltar confortavelmente para determinados escuros.
Depois que percebo que uma atitude minha machuca alguém, não posso mais dizer que não sabia.
Depois que reconheço um padrão em mim, posso até repeti-lo — somos humanos —, mas já não o repito com a mesma inocência.
Depois que percebo que uma relação precisa de limites, ignorar isso também se torna uma escolha.
Depois que reconheço que estou alimentando uma mágoa, preciso decidir o que farei com ela.
Depois que percebo que uma maneira de agir já não combina com meus valores, permanecer nela passa a exigir justificativas.
Talvez seja esse um dos preços da consciência.
Depois que a luz acende, fica mais difícil fingir que não vimos.
Mas há também uma liberdade nisso.
Porque aquilo que consigo enxergar, consigo trabalhar.
Aquilo que consigo nomear, consigo examinar.
Aquilo que consigo reconhecer, talvez consiga transformar.
A consciência não me torna perfeita.
Torna algumas escolhas mais conscientes.
E isso já é muito.
“Não sei”
Com o passar dos anos, descobri ainda uma forma de consciência que admiro cada vez mais.
A capacidade de dizer:
Não sei.
Não compreendi.
Posso estar enganada.
Preciso pensar.
Preciso ouvir.
Não tenho informações suficientes.
Essas frases já não me parecem sinais de fraqueza.
Parecem maturidade.
Quem precisa ter certeza sobre tudo corre o risco de transformar convicção em cegueira.
Uma pessoa consciente sabe que existem coisas que ainda não consegue enxergar.
E talvez justamente aí a consciência cumpra uma de suas funções mais importantes.
Ela acende a luz.
Mostra o que consegue mostrar.
E, diante daquilo que ainda permanece incerto, não inventa uma certeza.
Ela pergunta:
E agora?
Essa pergunta muda tudo.
Porque perceber é apenas o começo.
Depois que vejo o que está acontecendo dentro de mim, ainda preciso decidir o que farei com aquilo.
Responder?
Esperar?
Falar?
Silenciar?
Agir?
Recuar?
Buscar mais informações?
Dormir uma noite antes de decidir?
Consciência acende a luz.
Mas ela não percorre o caminho por nós.
Depois de enxergar, chega a hora de considerar.
De pesar.
De olhar um pouco além do impulso.
De imaginar consequências.
De escolher.
É aí que outra capacidade precisa entrar no País Interior.
A ponderação.
Processo do País Interior — Consciência
Objetivo: perceber com mais clareza o que acontece dentro de mim antes de decidir o que farei do lado de fora.
1. Pare. Interrompa, quando possível, a resposta automática.
2. Observe. Pergunte:
O que está acontecendo dentro de mim agora?
3. Nomeie. É medo? Raiva? Vergonha? Orgulho? Alegria? Insegurança? Indignação? Desejo?
Dar nome não resolve tudo. Mas ajuda a acender a luz.
4. Separe. O que é fato? O que é interpretação? O que pertence ao presente? O que pode ser alguma experiência antiga participando desta reação?
5. Examine-se com verdade. Estou tentando compreender ou apenas confirmar aquilo em que já decidi acreditar?
6. Não se condene. Caso encontrar um erro, reconheça o erro sem transformá-lo em identidade.
7. Admita seus limites. Quando necessário, diga:
Não sei. Posso estar enganada. Preciso pensar.
8. Pergunte. Agora que consigo enxergar um pouco melhor:
O que farei com aquilo que vi?
Princípio final
Consciência não é a voz que condena a alma. É a luz que permite que ela se enxergue.
E talvez uma vida consciente comece quando deixamos de perguntar apenas:
“O que aconteceu comigo? ”
e temos coragem de perguntar também:
“O que está acontecendo dentro de mim — e o que vou fazer com isso? ”
Marta Braatz2026
Gravidade Durante muito tempo, quando eu ouvia a palavra gravidade, minha mente fazia uma associação quase automática com aquilo que havia aprendido na escola. A força que nos mantém no chão. A força
Capítulo 16 - Responsabilidade Durante muito tempo, para mim, responsabilidade significou uma coisa bastante simples: se precisa ser feito, faça. Demorei anos para compreender que essa definição estav
Capítulo 15 - Solitude: A Arte de Estar na Própria Companhia “Há uma diferença entre estar sozinha e estar consigo mesma.” Durante grande parte da minha vida, quase nunca estive fisicamente sozinha. N
Comentários