top of page

Capítulo 11 — Ponderação: O Espaço entre o Impulso e a Ação

  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

Capítulo 11 — Ponderação: O Espaço entre o Impulso e a Ação

 

“Nem tudo o que pede uma resposta imediata merece recebê-la. ”

A consciência acendeu a luz.

Eu vi.

Percebi o que estava acontecendo dentro de mim.

Reconheci uma emoção, uma intenção, um medo, uma vontade, talvez até uma certeza.

E agora?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes do País Interior.

Porque perceber não é decidir.

Entre aquilo que acontece conosco e aquilo que fazemos existe um espaço.

Às vezes, dura alguns segundos.

Às vezes, uma noite.

Em algumas decisões da minha vida, durou meses.

Foi nesse espaço que aprendi a ponderar.

Eu sempre fui uma mulher de ação

Preciso começar por aqui porque não quero criar uma personagem que nunca fui.

Sou uma mulher de ação.

Tenho uma ideia e rapidamente começo a imaginar como colocá-la em prática.

Vejo um problema e procuro uma solução.

No comércio, isso foi uma qualidade importante. Na fotografia também. Muitas oportunidades não ficam esperando até que tenhamos absoluta certeza.

Empreender me ensinou a decidir.

A vida também.

Houve momentos em que precisei pensar depressa, assumir riscos e resolver.

Portanto, ponderação não significou para mim tornar-me uma mulher lenta ou indecisa.

Significou aprender que nem todas as decisões merecem a mesma velocidade.

Há coisas que podem ser resolvidas em minutos.

Outras precisam de uma noite.

Algumas exigem números.

Outras, conversa.

Há decisões que precisam de coragem.

E existem aquelas em que a maior coragem é não agir ainda.

Aprender a reconhecer a diferença levou tempo.

O impulso tem pressa

O impulso costuma chegar com uma sensação muito convincente de urgência.

Responda agora.

Resolva agora.

Diga o que pensa.

Tome uma decisão.

Faça alguma coisa.

E nem sempre o impulso está errado.

Às vezes, precisamos mesmo agir.

O problema é que emoção e urgência podem se parecer muito com clareza.

Eu conheço isso.

Já respondi no calor de uma situação.

Já falei antes de pensar o suficiente.

Já tive vontade de esclarecer imediatamente aquilo que considerei injusto.

Já achei que uma questão precisava ser resolvida naquele instante.

E conheço também o depois.

Aquele momento em que a emoção diminui e conseguimos enxergar uma frase que poderia ter sido dita de outra maneira.

Uma conversa que talvez pudesse ter esperado.

Uma resposta que não precisava existir.

Não preciso expor episódios para reconhecer o aprendizado.

Foi vivendo os dois lados — o impulso e o depois — que comecei a respeitar o espaço que existe entre eles.

Ponderar não é ter medo de decidir

Durante muito tempo, eu poderia ter confundido ponderação com hesitação.

Hoje vejo uma diferença importante.

A indecisão pode girar continuamente em torno da mesma questão sem conseguir escolher.

A ponderação tem movimento.

Ela observa.

Busca informações.

Compara.

Calcula.

Escuta.

Considera consequências.

E, quando encontra elementos suficientes, decide.

Foi exatamente assim em algumas das decisões mais importantes da minha vida.

Uma delas foi o encerramento do meu estúdio fotográfico em Alpestre.

Se alguém olhasse apenas para o dia em que comuniquei minha decisão, poderia imaginar que naquele momento eu havia decidido parar.

Não foi assim.

A decisão já vinha sendo construída dentro de mim.

Quando uma decisão precisa amadurecer

A fotografia havia sido uma estrutura importante para minha família.

Durante muitos anos, trabalhei em casamentos, batizados, crismas, primeiras eucaristias, formaturas, estúdio e tantos outros registros.

Eu tinha uma história ali.

Por isso não bastava estar cansada e dizer:

Chega.

Comecei a olhar para a realidade.

Meus equipamentos estavam envelhecendo.

Se eu quisesse continuar sendo uma fotógrafa de referência, precisaria investir.

O estúdio também exigiria renovação.

Fiz contas.

Analisei meus controles.

Observei quanto a fotografia estava gerando.

Comparei o investimento necessário com aquilo que o mesmo dinheiro poderia produzir se fosse colocado na loja.

Olhei para o final do ano e para a estrutura de que precisaria para atender a demanda.

Olhei para mim.

E havia ainda minha filha.

Ela estava justamente se descobrindo na fotografia.

Isso também entrou na decisão.

Eu não queria que o encerramento de um ciclo meu fosse interpretado por ela — ou transformado por alguém — como uma reação ao começo do ciclo dela.

Conversei com minha filha.

Expliquei o que estava pensando.

Ouvi.

Pensei mais.

Depois conversei com Fernanda, porque minha decisão também produziria uma mudança no cenário da fotografia da cidade, e achei correto avisá-la com antecedência.

Só então encerrei o estúdio fotográfico.

Não abandonei toda a fotografia. Mantive as fotos 3x4, revelações e a fotografia de produtos, que continuava útil para meu próprio trabalho.

Visto de fora, houve um dia em que tomei uma decisão.

Visto de dentro, houve um processo.

Isso é ponderação.

Não foi falta de coragem para decidir.

Foi respeito pelo tamanho da decisão.

Nem toda decisão precisa de meses

Mas seria um erro transformar essa experiência numa regra.

Nem tudo precisa ser analisado dessa maneira.

Se eu tivesse feito uma planilha para cada decisão da minha vida, talvez ainda estivesse escolhendo o que vender na primeira loja.

Há situações em que experiência e informação suficientes já estão disponíveis.

A resposta é simples.

Então se decide.

Ponderar não significa complicar aquilo que é simples.

Significa perceber quanto pensamento determinada decisão merece.

Talvez a maturidade esteja menos em pensar muito e mais em saber quando é necessário pensar mais.

Direito e sabedoria

Com o tempo, outra diferença se tornou importante para mim.

A diferença entre ter o direito de fazer alguma coisa e ser sábio fazê-la.

Posso ter direito de responder.

Mas preciso?

Posso ter razão.

Mas preciso provar?

Posso esclarecer uma história.

Mas qual será o resultado desse esclarecimento?

Posso dizer determinada verdade.

Mas ela precisa ser dita?

Agora?

Dessa maneira?

Para essa pessoa?

Essas perguntas não retiram direitos.

Acrescentam consequências.

Isso se tornou especialmente claro para mim enquanto escrevo este livro.

Eu conheço a minha história.

Sei nomes.

Sei episódios.

Sei detalhes que ninguém mais conhece.

Em muitos casos, tenho registros.

Eu poderia contar muito mais.

Mas poder contar não responde à pergunta mais importante:

Devo contar?

Há uma diferença entre esconder a verdade e decidir conscientemente até onde ela precisa ser exposta.

Algumas informações ajudam o leitor a compreender minha história.

Outras apenas exporiam alguém.

Algumas são necessárias para explicar uma decisão.

Outras alimentariam curiosidade sem acrescentar compreensão.

Ponderar também é isso.

Perguntar não apenas:

É verdade?

Mas:

O que esta verdade produzirá depois que sair das minhas mãos?

A palavra também tem um depois

Talvez nunca tenha sido tão fácil transformar impulso em consequência.

Hoje podemos sentir uma emoção, pegar o celular e, poucos segundos depois, colocá-la na vida de outra pessoa.

Mensagem.

Áudio.

Comentário.

Publicação.

Encaminhamento.

Tudo acontece muito rápido.

A tecnologia diminuiu o espaço entre sentir e agir.

Por isso talvez precisemos aprender conscientemente a recriá-lo.

Porque a raiva pode durar dez minutos.

A mensagem pode durar anos.

A interpretação pode estar errada.

O print continuará correto.

Há alguma ironia nisso.

Temos ferramentas cada vez mais rápidas e continuamos precisando aprender uma habilidade muito antiga:

esperar um pouco.

Não para fugir de conversas difíceis.

Algumas precisam acontecer.

Mas para chegar a elas com alguma clareza sobre aquilo que realmente queremos produzir.

O que quero produzir depois?

Essa pergunta mudou minha maneira de olhar para muitas decisões.

Não apenas:

O que quero fazer agora?

Mas:

O que quero encontrar depois que fizer isso?

Depois desta conversa, quero aproximação ou apenas a satisfação de ter vencido?

Depois desta decisão, conseguirei sustentar as consequências?

Depois desta compra, o investimento continuará fazendo sentido?

Depois deste “sim”, o que estarei assumindo?

Depois deste “não”, o que estarei protegendo?

Depois desta palavra, haverá alguma coisa que precisarei consertar?

A ponderação olha alguns metros além do impulso.

Não consegue prever tudo.

Ninguém consegue.

Mas tenta não agir como se o depois não existisse.

Minha vida empresarial me ensinou muito sobre isso.

Uma decisão aparentemente pequena podia afetar caixa, estoque, funcionários, clientes, família.

Uma compra não era apenas uma compra.

Um investimento não era apenas entusiasmo.

Uma contratação não terminava no momento em que alguém começava a trabalhar.

Toda escolha abria uma sequência.

Aprender a olhar para essa sequência foi parte do meu amadurecimento.

Há decisões que precisam dormir

Também aprendi o valor de não decidir cansada.

Nem sempre consegui.

Mas aprendi.

Há problemas que parecem enormes à noite e recuperam seu tamanho real pela manhã.

Há respostas que escrevemos mentalmente e agradecemos por nunca terem sido enviadas.

Há decisões que não precisam de uma solução imediata; precisam de descanso.

Eu, que sempre gostei de escrever e pensar, encontrei muitas vezes no papel esse intervalo.

Escrever organiza.

Quando uma questão sai da cabeça e aparece diante dos olhos, consigo observá-la de outro lugar.

Às vezes faço contas.

Às vezes escrevo possibilidades.

Às vezes apenas despejo pensamentos.

E há ocasiões em que nenhuma resposta aparece.

Então deixo.

Isso também foi aprendizado.

Nem toda pergunta precisa ser violentada até produzir uma resposta.

Algumas precisam de tempo.

Escutar também é ponderar

Ponderar não acontece apenas dentro de nós.

Às vezes precisamos de outro olhar.

Uma pessoa que conheça a situação.

Alguém que não esteja emocionalmente envolvido.

Uma experiência diferente da nossa.

Foi assim quando conversei com minha filha antes de encerrar o estúdio.

Eu já havia feito análises.

Tinha números.

Tinha motivos.

Mas ainda precisava falar.

E ouvi-la dizer, em essência, que eu não precisava continuar carregando aquilo teve importância para mim.

Escutar não significa entregar a outra pessoa a responsabilidade pela nossa decisão.

A decisão continuava sendo minha.

Mas outro olhar pode revelar um ponto cego.

Um bom conselho não dirige o nosso carro.

Pode apenas mostrar aquilo que o nosso espelho não alcançou.

Ponderação também sabe parar

Existe ainda um perigo para quem gosta de pensar.

Pensar demais.

Podemos analisar tanto uma decisão que a própria análise se transforma numa maneira de não decidir.

Mais uma informação.

Mais uma opinião.

Mais um cenário.

Mais um “e se? ”.

Em algum momento, a ponderação precisa terminar.

Se já tenho informações suficientes, se examinei as consequências possíveis, se ouvi quando precisava ouvir e se a decisão corresponde aos meus valores, chega uma hora em que preciso assumir o risco de escolher.

Porque não existe decisão humana com garantia absoluta.

Escolher também significa aceitar que não controlamos tudo o que acontecerá depois.

Essa parte talvez seja especialmente difícil para quem carrega muitas responsabilidades.

Queremos prever.

Proteger.

Evitar erros.

Mas a vida não entrega todas as variáveis.

Ponderação não é onisciência.

É responsabilidade diante daquilo que conseguimos saber.

Depois disso, escolhemos.

A pausa não diminuiu minha força

Hoje percebo que aprender a ponderar não me tornou menos ativa.

Talvez tenha tornado minha ação mais precisa.

Continuo gostando de ideias.

Continuo criando.

Continuo tendo vontade de resolver.

Ainda existem momentos em que penso:

Vamos fazer.

E faço.

Não quero perder isso.

Faz parte de mim.

Mas aprendi que força não é apenas capacidade de avançar.

Às vezes, força é conseguir permanecer parada por tempo suficiente para compreender para onde estamos prestes a ir.

A consciência pergunta:

O que está acontecendo dentro de mim?

A ponderação acrescenta:

E agora, o que farei com isso?

É um espaço pequeno.

Entre uma palavra e outra.

Entre receber e responder.

Entre desejar e escolher.

Entre sentir e agir.

Mas algumas das decisões que mais modificaram minha vida foram construídas exatamente ali.

Não escolho tudo aquilo que chega até mim.

Não escolho a primeira emoção.

Não controlo todas as circunstâncias.

Não sei todas as consequências.

Mas posso aprender a proteger esse pequeno espaço antes da ação.

E, quando for necessário, permanecer nele um pouco mais.

Até que o impulso deixe de ser o único a falar.

Até que a consciência tenha sido ouvida.

Até que os fatos encontrem lugar.

Até que eu consiga olhar também para o depois.

E então decidir.

Não porque tenho certeza de tudo.

Mas porque pensei o suficiente para assumir a responsabilidade pela escolha que farei.

 

Processo do País Interior — Ponderação

Objetivo: criar espaço suficiente entre o impulso e a ação para que a escolha não seja feita apenas pela emoção do momento.

1. Reconheça a urgência.Isso realmente precisa ser decidido agora ou apenas parece urgente?

2. Observe o impulso.O que estou com vontade de fazer imediatamente?

3. Procure os fatos.O que sei? O que estou supondo? Existe alguma informação importante que ainda preciso buscar?

4. Olhe para o depois.Pergunte:

O que esta escolha pode produzir depois?

5. Considere quem será alcançado.Minha decisão envolve apenas a mim ou também produzirá consequências na vida de outras pessoas?

6. Escute quando necessário.Existe alguém capaz de enxergar um ponto que eu talvez não esteja vendo?

7. Dê tempo ao que merece tempo.Algumas respostas precisam de minutos. Outras, de uma noite. Algumas, de muito mais.

8. Decida.Quando já houver elementos suficientes, escolha.

Ponderação não existe para impedir a ação.

Existe para qualificá-la.

Princípio final

Nem toda decisão precisa de demora. Mas algumas precisam de espaço.

E talvez amadurecer seja aprender a reconhecer quais são elas.

Marta Braatz2026

 

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
17- Gravidade

Gravidade Durante muito tempo, quando eu ouvia a palavra gravidade, minha mente fazia uma associação quase automática com aquilo que havia aprendido na escola. A força que nos mantém no chão. A força

 
 
 
Capítulo 16 - Responsabilidade

Capítulo 16 - Responsabilidade Durante muito tempo, para mim, responsabilidade significou uma coisa bastante simples: se precisa ser feito, faça. Demorei anos para compreender que essa definição estav

 
 
 

Comentários


Produtos relacionados

​Copyright © 2024 Marta Braatz. CNPJ: 13.237.120/0001-59
Avenida Farrapos, 427 - Centro, Alpestre/RS, 98480-000.
bottom of page