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Capítulo 13 — Limites: As Fronteiras do País Interior

  • há 5 dias
  • 15 min de leitura

Capítulo 13 — Limites: As Fronteiras do País Interior


“Limites não fecham a vida. Organizam o acesso a ela.”


Todo país possui fronteiras.

Não porque tudo o que está do outro lado seja ruim.

Não porque quem vive dentro precise temer o mundo.

Fronteiras existem porque é necessário saber onde um território começa, onde termina e sob qual governo ele está.

Durante muitos anos, eu soube cuidar.

Soube acolher.

Soube trabalhar.

Soube assumir responsabilidades.

Soube resolver problemas.

Soube proteger.

Demorei mais para compreender que todas essas capacidades precisavam de limites.

Talvez porque, quando aprendemos muito cedo a carregar, a força se torne tão natural que nem sempre percebemos quando estamos carregando aquilo que já não nos pertence.

Hoje entendo melhor.

Há responsabilidades que são minhas.

Há responsabilidades que pertencem ao outro.

Há momentos em que ajudar é amor.

Em outros, assumir aquilo que caberia ao outro pode impedir seu crescimento.

Há situações em que silenciar é ponderação.

Em outras, é preciso falar.

Há portas que precisam permanecer abertas.

E há momentos em que precisamos fechá-las.

Não por vingança.

Por governo.

A menina que assumiu responsabilidades de adulta

Eu era muito jovem quando precisei assumir responsabilidades grandes.

Aos 19 anos, estava à frente de uma empresa familiar.

A Braatz & Cia Ltda. ajudava a sustentar uma casa, e durante muito tempo também foi a base para que meus irmãos crescessem, estudassem, trabalhassem e, pouco a pouco, construíssem condições para seguir suas próprias vidas.

Eu trabalhava.

Administrava.

Criava.

Ensinava.

Organizava.

Resolvia.

Tomava decisões.

E observava.

Talvez essa última palavra seja uma das mais importantes.

Eu observava.

Meus irmãos eram mais novos. Havia crianças olhando para a maneira como os adultos resolviam os problemas, e eu sabia que meu comportamento também ensinava.

Eu já conhecia maneiras de resolver conflitos pela agressividade, pela violência física ou verbal.

Não queria ser mais uma pessoa repetindo aquilo.

Então muitas vezes contornei.

Respirei.

Pensei.

Resolvi.

Nem sempre porque sabia exatamente o que estava fazendo.

Às vezes porque era simplesmente o melhor que eu conseguia fazer com os recursos que possuía naquele momento.

Hoje seria muito fácil olhar para aquela jovem com o conhecimento que adquiri depois e dizer:

— Você deveria ter colocado limites antes.

Não quero fazer isso com ela.

Seria injusto.

A Marta de 19 anos não tinha a experiência da mulher que hoje escreve estas páginas.

Ela estava cursando uma escola para a qual ninguém havia lhe entregado a grade curricular.

A escola da vida

Tenho enorme respeito pelo conhecimento acadêmico.

A faculdade aprofunda áreas específicas, oferece método, conhecimento técnico, professores, pesquisas, referências.

Mas existe outra escola que todos frequentamos, tendo escolhido ou não.

A escola da vida.

Nela, as disciplinas chegam sem aviso.

Responsabilidade.

Dinheiro.

Família.

Trabalho.

Liderança.

Conflitos.

Perdas.

Escolhas.

Consequências.

Relacionamentos.

Filhos.

Erros.

Recomeços.

Não existe uma formatura definitiva.

Cada fase parece entregar um diploma e, logo depois, abrir matrícula para outra matéria que ainda não conhecemos.

Eu continuo estudando.

E, olhando para trás, posso dizer sem falsa modéstia que procurei ser uma boa aluna.

Não porque tenha acertado todas as provas.

Não acertei.

Mas porque procurei não desperdiçar as aulas.

Quando não sabia, buscava.

Quando alguma coisa não fazia sentido, investigava.

Quando errava, tentava corrigir.

Quando precisava de conhecimento, estudava.

Quando precisava de sabedoria, orava.

Eu não atravessei aqueles anos distraída.

Vivi desperta.

Com um olho no presente e outro no futuro.

Quando proteger é responsabilidade

Um dos meus irmãos reprovou na primeira série.

Aquilo me preocupou.

Eu o conhecia.

Era inteligente.

Então a explicação mais fácil — “ele não aprende”, “é distraído”, “não gosta de estudar” — não me satisfez.

Eu precisava compreender.

Já havia ajudado outros irmãos com os estudos e decidi fazer novamente. Ele passou a vir para a empresa à tarde, e eu o auxiliava nas tarefas.

Depois fui à escola.

As professoras disseram que ele parecia muito distraído. Chamavam uma vez, duas, três, e ele nem sequer olhava.

Aquilo não combinava com o menino que eu conhecia.

Então fiz uma pergunta simples:

— Como vocês o chamam?

Disseram seu primeiro nome.

E ali compreendi.

Em casa, nós o chamávamos de Junior.

Ele carregava o nome do nosso pai e, para diferenciá-los, sempre fora Junior para nós.

O menino simplesmente não sabia que aquele primeiro nome usado pelas professoras também era dele.

Quando o chamavam, ele não respondia porque não sabia que estavam falando com ele.

Expliquei a situação à professora.

Depois conversei com meu irmão.

O problema não era falta de inteligência.

Às vezes uma criança rotulada como distraída só precisa que alguém pare de olhar para o rótulo e comece a olhar para ela.

Acompanhei seus estudos.

Orientei.

Cuidei enquanto aquele cuidado fazia parte da minha responsabilidade.

Ele cresceu.

Estudou.

Construiu sua profissão.

Construiu sua vida.

E chegou o momento em que aquilo que um dia havia sido minha responsabilidade deixou de ser.

Talvez essa seja uma das lições mais difíceis sobre limites:

o amor pode permanecer quando a responsabilidade muda de endereço.

A responsabilidade precisa ter endereço

Durante muitos anos, eu fui muito boa em resolver.

Isso é uma qualidade.

Mas toda qualidade, quando não encontra limites, pode produzir excessos.

Quem resolve muito pode começar a resolver aquilo que não deveria.

Quem protege muito pode impedir que o outro experimente consequências necessárias.

Quem ajuda sempre pode, sem perceber, ensinar alguém a depender.

Quem suporta tudo pode ensinar os outros que não existe fronteira.

Por isso hoje faço uma pergunta que considero fundamental:

De quem é esta responsabilidade?

Se é minha, assumo.

Se é compartilhada, faço a minha parte.

Se pertence ao outro, posso ajudar, orientar, aconselhar, acompanhar — mas preciso ter cuidado para não tomar para mim aquilo que a vida está pedindo que ele carregue.

Há uma frase que resume isso:

Até aqui é responsabilidade minha. Daqui para frente pertence ao outro.

Parece simples.

Demorei muitos anos para aprender.

A primeira porta

Durante muito tempo, consegui contornar situações difíceis dentro da empresa familiar.

Minha mãe era a proprietária.

Eu estava à frente dos negócios.

Isso criava uma relação delicada entre os papéis de mãe, filha, proprietária e administradora.

Eu respeitava o lugar dela.

Mas também precisava trabalhar.

E chegou um dia em que uma discussão ultrapassou aquilo que eu conseguia considerar aceitável.

Houve gritos.

Houve falta de respeito.

E alguma coisa em mim finalmente compreendeu que respeito não podia ser exigido apenas de mim.

Então apontei para a porta e disse:

— Só volte aqui o dia que me respeitar.

Ela não voltou.

Conto isso com cuidado.

Não para transformar minha mãe em vilã.

Não para transformar a mim em heroína.

É apenas uma cena da nossa história.

Mas hoje reconheço naquela porta um símbolo.

Eu ainda não possuía todo o vocabulário que tenho agora.

Não falava em fronteiras emocionais, responsabilidade individual ou limites saudáveis.

Mas naquele momento comecei a compreender uma coisa:

amar alguém não lhe concede o direito de nos tratar de qualquer maneira.

Nem mesmo quando esse alguém é família.

Talvez principalmente na família essa aprendizagem seja mais difícil.

Porque os vínculos são antigos.

Os papéis foram estabelecidos quando ainda éramos crianças.

E, muitas vezes, todos crescem, mas continuam tentando entrar uns na vida dos outros pelas mesmas portas de antigamente.

A família também precisa aprender novos mapas

Quando meus irmãos cresceram, estudaram, trabalharam e construíram suas próprias vidas, nossa relação também precisava crescer.

Mas relações não amadurecem automaticamente porque as pessoas envelhecem.

Às vezes o corpo adulto continua obedecendo ao mapa familiar da infância.

A irmã que resolvia continua sendo procurada para resolver.

Quem opinava continua achando que pode opinar sobre tudo.

Quem tinha acesso a determinadas informações continua supondo que esse acesso é permanente.

Até que alguém redesenha o mapa.

Foi o que comecei a fazer.

Pouco a pouco.

Observando.

Falando quando precisava.

Silenciando quando explicar mais não produziria nada.

E estabelecendo algumas fronteiras.

Em determinado momento, precisei deixar claro que assuntos da minha vida e da vida dos meus filhos deveriam ser tratados diretamente comigo.

Se alguém quisesse saber, poderia perguntar.

Eu não queria mais viver no meio de telefones sem fio, versões, interpretações e conversas que circulavam sem passar pela pessoa a quem pertenciam.

Não rompi com a família.

Organizei o acesso.

Existe diferença.

Amor não significa acesso irrestrito

Talvez esta seja uma das frases mais importantes deste capítulo:

Podemos amar alguém sem lhe conceder acesso irrestrito à nossa vida.

Posso amar e dizer não.

Posso compreender e não concordar.

Posso perdoar e manter distância.

Posso desejar o bem e não compartilhar intimidade.

Posso ajudar e não assumir.

Posso respeitar alguém e exigir respeito.

Posso ser família e ainda assim possuir fronteiras.

Durante muito tempo, talvez eu tenha acreditado que colocar limites pudesse ferir o amor.

Hoje penso diferente.

Às vezes, a ausência de limites é justamente aquilo que adoece o amor.

Porque aquilo que deveria circular começa a se misturar com invasão, ressentimento, obrigação, controle e exaustão.

O amor precisa ir e vir.

Mas, para circular de maneira saudável, precisa encontrar estruturas que não o transformem em outra coisa.

As pedras

Certa vez usei uma imagem para explicar como enxergava algumas experiências da minha vida.

Eu dizia que me atiravam pedras.

E que, em vez de devolvê-las, eu as guardava.

Uma.

Depois outra.

Mais uma.

Pedras pequenas.

Pedras maiores.

Algumas quase não deixavam marcas.

Outras machucavam muito.

Porque o tamanho de uma pedra não depende apenas das palavras ou do acontecimento.

Depende também de quem a lançou.

Uma frase vinda de um desconhecido pode passar rapidamente.

A mesma frase, vinda de alguém que conhece nossa história, nossos valores e nossa verdade, pode ter outro peso.

Durante muito tempo, fui recolhendo pedras.

Até perceber que poderia fazer alguma coisa com elas.

A fortaleza

Pedras podem ser usadas para ferir.

Mas também podem construir.

Essa imagem foi crescendo dentro de mim.

As pedras que chegaram não precisavam permanecer espalhadas pelo chão da minha vida para que eu tropeçasse nelas repetidamente.

Também não precisava lançá-las de volta.

Eu poderia construir.

E fui construindo minha fortaleza.

Não uma prisão.

Não um lugar de onde observo o mundo com medo.

Uma fortaleza com portas.

Com caminhos.

Com gente entrando e saindo.

Com vida dentro.

Hoje gosto de pensar que moro no centro dela.

Quem entra?

Quem eu autorizo.

Até onde entra?

Depende.

Porque intimidade não é um direito adquirido simplesmente pelo parentesco, pela amizade, pelo tempo de convivência ou por qualquer outro título.

Intimidade é confiança.

E confiança precisa ser cuidada.

As pedras precisaram de argamassa

Mas existe algo que compreendi enquanto escrevia estas páginas:

pedras empilhadas não formam uma fortaleza segura.

Elas precisavam de argamassa.

E eu passei a vida procurando essa argamassa.

Encontrei parte dela no estudo.

Nos livros.

Nas anotações.

Nos cursos.

No trabalho.

Nas experiências.

No autoconhecimento.

Nas conversas.

Nos erros.

Na observação.

Na oração.

Eu acreditava — e continuo acreditando — que o amor de Deus por mim não era um chamado à passividade.

Se eu pedia sabedoria, precisava estar disposta a aprender.

Se pedia paciência, precisava exercitá-la.

Se pedia direção, precisava permanecer atenta.

Se pedia força, precisava aprender a usá-la sem me tornar violenta.

Eu precisava construir.

Talvez muitas coisas que estudei ao longo da vida fossem exatamente isso:

argamassa.

Conhecimento para unir experiências que, sozinhas, poderiam permanecer apenas como acontecimentos dolorosos.

Quando compreendidas, elas podiam se transformar em estrutura.

Portas abertas não significam ausência de governo

Minha loja sempre teve portas abertas.

Essa imagem me ajuda muito a compreender limites.

Uma loja existe para receber pessoas.

Clientes entram.

Conversam.

Olham.

Compram.

Voltam.

Criam vínculos.

As portas abertas fazem parte daquele espaço.

Mas portas abertas nunca significaram ausência de governo.

Certa vez, um homem desrespeitou uma funcionária minha.

Inicialmente imaginei que ela saberia se defender.

Então percebi que havia paralisado.

Ela sorria, mas reconheci que aquele sorriso era nervoso.

Levantei da minha mesa.

Fui até ela.

E mandei o homem se retirar da loja.

Ele tentou dizer que estava brincando.

Apontei que aquilo era desrespeito.

Ele ainda tentou argumentar.

Reiterei:

deveria sair e não voltar.

E saiu.

Depois minha funcionária me olhou, surpresa, e comentou que eu a havia defendido.

Sim.

Ela estava sob minha responsabilidade naquele ambiente.

Essa história me ajuda a compreender algo essencial:

limites não servem apenas para proteger a nós mesmos.

Quando temos responsabilidade legítima sobre um ambiente ou sobre alguém que naquele momento precisa da nossa proteção, estabelecer fronteiras também pode ser nosso dever.

Minha funcionária não precisava aceitar desrespeito para que eu preservasse um cliente.

Naquela loja havia governo.

E uma das regras era respeito.

Quando o silêncio seria omissão?

É por isso que a pergunta “de quem é a responsabilidade? ” Precisa ser acompanhada de outra:

O que esta situação está pedindo de mim?

Há momentos em que interferir na vida de outro adulto seria invasão.

Em outros, ficar calada diante daquilo que está sob nossa responsabilidade seria omissão.

Um filho pequeno exige uma forma de cuidado.

Um filho adulto, outra.

Uma equipe sob nossa liderança exige determinada responsabilidade.

Um amigo exige outra.

Um irmão adulto possui escolhas que não podemos fazer por ele.

Discernimento e limites precisam caminhar juntos.

Nem toda intervenção é controle.

Nem todo silêncio é respeito.

Nem toda ajuda é amor.

Nem toda recusa é egoísmo.

A vida exige leitura.

Limite não é castigo

Durante muito tempo, muita gente aprendeu a enxergar limite como punição.

“Se você fizer isso, nunca mais fale comigo. ”

“Agora você vai ver.”

Isso não é o limite que desejo construir.

Um limite saudável não existe para fazer o outro sofrer.

Existe para dizer:

Isto eu aceito.

Isto não aceito.

Até aqui você pode entrar.

Daqui para frente, não.

A reação do outro pertence ao outro.

Ele pode compreender.

Pode se irritar.

Pode se afastar.

Pode tentar negociar.

Pode dizer que mudamos.

Pode nos chamar de egoístas.

Pode respeitar.

O limite não pode depender da aprovação da pessoa que está sendo limitada.

Se depender, não é fronteira.

É pedido de autorização.

Sustentar o limite

Talvez dizer o limite nem seja a parte mais difícil.

Difícil é sustentá-lo.

Porque, depois que dizemos não, pode aparecer culpa.

Depois que fechamos uma porta, podemos sentir vontade de abri-la apenas para evitar o desconforto do outro.

Depois que decidimos não assumir mais determinada responsabilidade, podemos vê-la sendo mal executada e pensar:

Seria tão mais fácil se eu mesma fizesse.

Eu conheço bem essa tentação.

Quem passou muitos anos resolvendo sabe o prazer e o peso de pensar:

Deixa que eu faço.

Só que algumas vezes o amor precisa suportar assistir ao outro aprender.

Inclusive aprender errando.

As cicatrizes

Algumas situações da minha vida me feriram.

Não preciso contar todas.

Nem quero.

Nem toda história precisa ser exposta para que seu aprendizado seja compartilhado.

Algumas pertencem à intimidade das pessoas envolvidas.

Mas posso dizer o que fiz com elas.

Cuidei das feridas.

Algumas demoraram.

Outras cicatrizaram mais rápido.

Hoje existem cicatrizes.

E gosto da imagem da cicatriz porque ela não mente.

Ela não diz:

Nada aconteceu.

Aconteceu.

Mas também não diz:

A ferida continua aberta.

Não continua.

A cicatriz é a memória de algo que feriu e também a evidência de que houve reparação.

Não preciso viver tocando nela todos os dias.

Posso simplesmente saber que está ali.

E aprender.

Eu fui escudo

Por muitos anos, fui escudo para outras pessoas.

Especialmente quando havia crianças envolvidas, tomei decisões pensando também naquilo que elas estavam vendo e aprendendo.

Hoje consigo olhar para isso sem arrependimento.

Eu fiz aquilo que entendia que precisava ser feito nas condições que possuía.

Certamente errei em algumas coisas.

Certamente carreguei outras por tempo demais.

Mas não quero julgar aquela mulher apenas pelo que hoje sei.

Ela protegeu.

Trabalhou.

Sustentou.

Ensinou.

Buscou soluções.

E continuou.

Há um tempo para ser escudo.

Mas talvez uma das grandes aprendizagens da maturidade seja perceber quando as pessoas que protegíamos cresceram.

Meus irmãos são adultos.

Meus filhos crescem.

As pessoas que amo possuem seus próprios Países Interiores.

Eu não sou governante deles.

Posso ser irmã.

Mãe.

Amiga.

Companheira.

Posso amar.

Posso aconselhar quando houver espaço.

Posso ajudar.

Mas não preciso viver as provas que pertencem a eles.

Eles também frequentam a escola da vida.

Falar sem abrir a boca

Com o tempo, percebi ainda outra coisa.

Nem todo ensinamento precisa ser explicado.

Quando meus irmãos eram crianças, eu sabia que observavam meu comportamento.

Hoje somos adultos.

Não preciso mais educá-los.

Mas todos nós continuamos observando uns aos outros.

A maneira como vivemos fala.

A maneira como estabelecemos limites fala.

A maneira como tratamos nossos filhos fala.

A maneira como reagimos a uma provocação fala.

A maneira como não reagimos também.

Às vezes eu falo sem abrir a boca.

Não porque queira dar lições.

Mas porque toda vida coerente acaba dizendo alguma coisa.

O outro poderá compreender ou não.

E isso também pertence a ele.

O palácio

Às vezes exagero na metáfora e digo que hoje moro em um palácio cercado pelas pedras que um dia me atiraram.

Gosto desse exagero.

Porque ele contém uma verdade.

Primeiro havia pedras.

Depois construí fronteiras.

As fronteiras formaram uma fortaleza.

E, com o tempo, percebi que não precisava viver eternamente na guarita.

Esse talvez seja um sinal de cura.

Quando estabelecemos limites depois de muitas invasões, podemos ficar hipervigilantes.

Quem chegou?

O que quer?

Por que perguntou?

Até onde pretende entrar?

Mas uma fortaleza que exige vigilância permanente também pode se transformar numa prisão.

Limites maduros precisam permitir descanso.

Hoje prefiro entrar.

Ir para o centro.

Habitar.

Desfrutar.

Meu palácio não é feito de luxo.

É feito de paz.

E dentro dele existe um jardim.

Voltar para o jardim

Talvez seja isso que eu mais goste na imagem.

Eu não construí fronteiras para passar o resto da vida olhando para as muralhas.

Construí para poder voltar ao jardim.

Ali existe vida.

Existe família.

Existem filhos.

Existem amigos.

Existe trabalho.

Existe silêncio.

Existe fé.

Existe uma árvore que gosto de contemplar.

Existem orquídeas.

Existe um balanço.

Existe espaço para receber.

O coração não ficou endurecido do lado de dentro da fortaleza.

Continua vivo.

Talvez até mais livre para amar, porque já não precisa confundir amor com acesso irrestrito.

As portas podem permanecer abertas.

Mas existe governo.

O amor e as fronteiras

Enquanto escrevia sobre limites, compreendi algo que talvez ainda precise amadurecer dentro de mim.

Tenho pensado no amor como algo que circula.

Como sangue.

Ele irriga.

Nutre.

Vai.

Volta.

Alcança diferentes partes.

E talvez os limites não existam para interromper essa circulação.

Talvez ajudem a protegê-la.

Porque amor sem discernimento pode se confundir com dependência.

Amor sem humildade pode virar controle.

Amor sem consciência pode repetir padrões.

Amor sem limites pode deixar de ser cuidado e tornar-se invasão ou abandono de si.

Não quero um País Interior cercado por muros onde o amor não consegue entrar.

Quero um território em que ele consiga circular sem que eu precise desaparecer para que os outros existam.

Cada pessoa cuida do seu mundo

Hoje compreendo melhor algo que levei muitos anos para aprender:

cada adulto precisa assumir o governo do próprio mundo.

Posso participar.

Posso amar.

Posso caminhar junto.

Mas não posso governar o País Interior de outra pessoa.

E ninguém deveria governar o meu.

Isso não elimina a interdependência.

Precisamos uns dos outros.

Famílias se ajudam.

Amigos se sustentam.

Comunidades existem justamente porque não fomos feitos para viver isolados.

Mas existe diferença entre caminhar junto e carregar alguém indefinidamente.

Entre ajudar e substituir.

Entre acolher e permitir invasão.

Entre aconselhar e controlar.

Entre amar e abandonar a si mesma.

Hoje ainda estou aprendendo essas diferenças.

Provavelmente continuarei.

A consciência tranquila

Quando olho para trás, não sinto necessidade de transformar todas as minhas decisões em acertos.

Sei que poderia ter feito algumas coisas melhor.

Em outras, talvez tenha demorado demais.

Em algumas situações, coloquei limites somente depois de já estar ferida.

Mas também consigo olhar para a jovem que fui e reconhecer:

ela fez o que conseguiu com aquilo que tinha.

Estudou.

Trabalhou.

Protegeu.

Aprendeu.

Orou.

Errou.

Corrigiu.

Seguiu.

E teve bons resultados.

As pessoas que um dia precisaram tanto de mim cresceram.

Construíram suas vidas.

Hoje podem responder por suas escolhas.

Isso me traz paz.

Não preciso continuar provando aquilo que fiz.

Nem preciso que todos compreendam cada decisão.

A verdade não precisa ser repetida indefinidamente para continuar sendo verdade.

Minha consciência sabe.

E Deus sabe.

Para mim, basta.

As fronteiras do País Interior

Hoje, quando penso em limites, não vejo uma muralha fria.

Vejo um país bem cuidado.

Há fronteiras.

Há portões.

Há pontes.

Há caminhos.

Há janelas.

Há pessoas que entram.

Há pessoas que permanecem mais perto.

Outras ficam mais longe.

Algumas podem chegar até o jardim.

Pouquíssimas recebem as chaves da casa.

E isso não significa que as demais sejam ruins.

Significa apenas que proximidade também possui níveis.

Nem todo mundo precisa conhecer tudo.

Nem todo mundo precisa participar de tudo.

Nem toda opinião precisa entrar.

Nem toda acusação precisa ser respondida.

Nem toda provocação merece reação.

Nem todo problema precisa ser resolvido por mim.

E nem toda pessoa que amo precisa morar no centro do meu País Interior.

Aprendi a abrir portas para acolher.

Precisei aprender que uma porta também precisa poder ser fechada.

E talvez a maior descoberta tenha sido esta:

fechar uma porta não significa necessariamente fechar o coração.

Processo do País Interior — Limites

Objetivo: reconhecer e proteger as fronteiras necessárias para viver relações mais conscientes, responsáveis e saudáveis.

1. Encontre o endereço da responsabilidade.

Diante de uma situação, pergunte:

Isto é realmente meu?

É compartilhado?

Ou estou assumindo aquilo que pertence ao outro?

2. Observe seus acessos.

Quem possui acesso à sua vida?

A quais assuntos?

Em que grau?

Parentesco, amizade ou tempo de convivência não precisam significar acesso irrestrito.

3. Diferencie ajudar de assumir.

Pergunte:

Estou apoiando esta pessoa ou vivendo por ela?

4. Observe o que acontece depois do seu “não”.

A culpa aparece?

Você volta atrás apenas porque o outro ficou desconfortável?

Um limite precisa sobreviver à reação de quem o recebeu.

5. Reconheça quando proteger é sua responsabilidade.

Há pessoas e ambientes sob seus cuidados.

Nesses casos, não intervir também pode ser uma escolha com consequências.

6. Examine suas pedras.

O que você fez com aquilo que a feriu?

Ainda está segurando a pedra?

Atirou de volta?

Tropeça nela repetidamente?

Ou conseguiu transformá-la em aprendizado e estrutura?

7. Procure sua argamassa.

Que recursos ajudam você a sustentar limites saudáveis?

Conhecimento?

Autoconhecimento?

Oração?

Terapia?

Boas conversas?

Silêncio?

Experiência?

Discernimento?

8. Verifique sua fortaleza.

Ela protege sua vida ou a aprisiona?

Existem portões?

Você ainda consegue confiar?

Receber?

Amar?

Descansar?

9. Volte para o jardim.

Depois de estabelecer um limite, não passe a vida inteira vigiando a muralha.

Limites existem para que possamos viver melhor dentro deles.

Princípio final

Limites não são paredes construídas para deixar o mundo do lado de fora. São fronteiras que nos permitem continuar inteiros do lado de dentro.

Algumas pedras me feriram.

Eu as recolhi.

Procurei argamassa.

Construí.

Hoje há uma fortaleza.

Há governo.

Há portões.

Há amor circulando.

E, no centro dela, não há uma mulher em guerra.

Há uma mulher vivendo.

Marta BraatzAgosto, 2026.

 

 
 
 

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