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Capítulo 2 — A Educação do Olhar

  • há 3 dias
  • 8 min de leitura

Capítulo 2 — A Educação do Olhar

“Nem todo aquele que abre os olhos aprende a enxergar. Ver é um ato dos olhos. Enxergar é uma aprendizagem da alma.”

Durante muitos anos acreditei que enxergar fosse algo natural.

Bastava abrir os olhos.

Com o tempo descobri que não.

Duas pessoas podem assistir à mesma cena e sair contando histórias completamente diferentes. Os fatos foram os mesmos. Os olhos também. O que mudou foi aquilo que cada uma conseguiu perceber — e a maneira como interpretou o que viu.

Foi então que comecei a compreender que existe uma diferença entre visão e olhar.

A visão pertence ao corpo.

O olhar pertence à pessoa inteira.

Ele carrega nossa história, nossas memórias, nossas alegrias, nossas dores, nossos medos, nossas esperanças e tudo aquilo que aprendemos ao longo da vida.

Os olhos captam imagens.

Mas é o olhar que lhes atribui significado.

Talvez eu tenha compreendido isso de uma maneira muito particular porque passei boa parte da vida trabalhando com imagens.

Fui fotógrafa durante muitos anos.

Aprendi sobre luz, enquadramento, perspectiva, distância, foco. Aprendi que mudar alguns centímetros de posição pode transformar uma fotografia. Aquilo que desaparecia de um ângulo surgia inteiro quando eu me deslocava.

A cena continuava a mesma.

Quem havia mudado de lugar era eu.

Curiosamente, demorei muito mais para compreender que a vida também funciona assim.

Há situações para as quais olhei durante anos do mesmo lugar e, por isso, enxergava sempre a mesma coisa. Tinha certeza daquilo que via. Conseguia explicar. Argumentar. Defender minha interpretação.

Até que a vida me deslocava.

Às vezes delicadamente.

Outras, nem um pouco.

E aquilo que parecia tão evidente ganhava outro contorno.

Comecei então a desconfiar um pouco das minhas primeiras certezas.

Não a ponto de viver sem convicções.

Mas o suficiente para aprender uma frase que hoje considero importante:

Talvez eu ainda não esteja vendo tudo.

Essa frase não enfraqueceu minhas convicções.

Enfraqueceu um pouco a minha pressa.

E isso me fez bem.

Durante muito tempo procurei mudar as pessoas.

Quando eu percebia alguma coisa que me parecia evidente, tinha dificuldade para compreender por que o outro não enxergava também.

Eu explicava.

Argumentava.

Tentava mostrar outro caminho.

Às vezes insistia.

Havia boa intenção em muitas dessas tentativas. Mas boa intenção não nos concede automaticamente razão, muito menos autoridade sobre a vida de alguém.

Hoje procuro fazer primeiro outro movimento.

Antes de tentar mudar a pessoa, tento educar meu próprio olhar.

Porque aprendi que um olhar impaciente encontra defeitos com facilidade.

Um olhar orgulhoso seleciona evidências para confirmar aquilo em que já acredita.

Um olhar ferido pode enxergar ameaça onde existe apenas diferença.

E até um olhar amoroso pode se enganar quando deseja tanto proteger alguém que começa a acreditar que sabe o que é melhor para ele.

Talvez por isso educar o olhar seja um trabalho para a vida inteira.

Há outra coisa que a fotografia me ensinou.

Uma imagem não contém tudo.

Existe aquilo que ficou dentro do enquadramento e existe todo um mundo que permaneceu fora dele.

Na vida também.

Quantas vezes julguei uma situação conhecendo apenas o pedaço que cabia no meu enquadramento?

Quantas vezes alguém fez o mesmo comigo?

Viu uma atitude.

Uma resposta.

Uma decisão.

Um silêncio.

E construiu a partir daquele fragmento uma história inteira.

Nós fazemos isso com uma facilidade impressionante.

O problema é que pessoas não cabem num retrato.

Nem histórias inteiras cabem numa cena.

Hoje, quando volto à minha própria trajetória, percebo isso com ainda mais clareza.

Consigo olhar para algumas atitudes minhas e compreender coisas que, naquela época, eu não conseguia nomear.

Em determinados momentos vejo cansaço onde antes enxergava apenas irritação.

Vejo medo escondido atrás de uma necessidade de controle.

Vejo uma mulher tentando dar conta de coisas demais.

Em outros episódios, porém, o tempo não produziu justificativas.

Produziu responsabilidade.

Consigo olhar e dizer:

Ali eu errei.

Educar o olhar não significa encontrar uma explicação benevolente para tudo o que fizemos.

Às vezes enxergar melhor significa justamente perder uma desculpa.

Talvez essa seja uma das razões pelas quais revisitar a própria história seja tão desafiador.

O passado não muda.

Mas o olhar que volta até ele, sim.

E, quando o olhar muda, podemos encontrar naquela mesma cena alguma coisa que antes não tínhamos condições de perceber.

Isso também aconteceu comigo em relação às outras pessoas.

Durante muitos anos observei gente.

Talvez o balcão de uma loja tenha sido uma das minhas maiores escolas.

As pessoas entravam para comprar uma coisa e, muitas vezes, traziam junto uma vida inteira.

Nem sempre contavam.

Mas alguma coisa aparecia.

No jeito de falar.

Na pressa.

Na hesitação.

No silêncio.

Na forma de escolher um presente.

Na necessidade de conversar um pouco mais.

Naquele cliente que permanecia diante do balcão mesmo depois de a compra já estar resolvida.

A fotografia também me ensinou a observar detalhes. O comércio, de outra maneira, fez o mesmo.

E a vida foi acrescentando outras salas de aula.

Minha família.

Meus filhos.

Amizades.

Conflitos.

Despedidas.

Pessoas mais velhas.

Crianças.

Erros meus.

Erros dos outros.

Conversas que me acompanharam por anos.

Silêncios que disseram mais do que algumas conversas.

Houve pessoas que me ensinaram pelo exemplo.

Outras me ensinaram justamente pelo contrário.

Durante algum tempo eu não conseguia imaginar que alguém que havia me ferido pudesse ter me ensinado alguma coisa.

Parecia quase uma absolvição.

Hoje entendo que são coisas diferentes.

Reconhecer aquilo que aprendi com uma experiência não transforma o errado em certo.

Também não me obriga a permanecer perto de quem me faz mal.

Apenas impede que a dor seja a única coisa que eu leve comigo.

Algumas pessoas mostraram, pela maneira como viveram, caminhos que admiro e desejo seguir.

Outras mostraram caminhos que não quero percorrer.

As duas coisas me ensinaram.

Isso mudou inclusive a maneira como compreendo sensibilidade.

Durante muito tempo, sensibilidade poderia parecer apenas sentir muito.

Hoje penso diferente.

Sensibilidade também é perceber.

É notar aquilo que ainda não foi dito.

Mas aqui existe um cuidado importante.

Perceber não significa saber.

Posso notar que alguém está diferente sem saber por quê.

Posso perceber tristeza e errar a causa.

Posso reconhecer um silêncio sem conhecer a história que existe dentro dele.

Se não houver humildade, aquilo que chamo de sensibilidade pode se transformar apenas numa interpretação muito confiante sobre a vida alheia.

Por isso a sensibilidade precisa caminhar acompanhada.

Da observação.

Da prudência.

Da empatia.

E da consciência de que talvez eu ainda não esteja vendo tudo.

Essa descoberta também mudou minha maneira de falar.

Nem tudo o que percebemos precisa ser imediatamente dito.

Essa foi uma aprendizagem importante para mim.

Sou uma mulher de palavras. Gosto de conversar, explicar, perguntar, procurar sentido. Durante muito tempo achei que uma conversa sincera exigisse colocar tudo sobre a mesa.

Hoje já não tenho tanta certeza.

Existem verdades que precisam ser ditas.

Existem conversas que não podem ser adiadas.

Existem momentos em que o silêncio seria covardia.

Mas também existem palavras corretas pronunciadas na hora errada.

Há pessoas que precisam ser ouvidas antes de serem orientadas.

Há dores diante das quais uma explicação é quase uma invasão.

E existem situações em que minha vontade de responder diz muito mais sobre mim do que sobre aquilo de que o outro realmente necessita.

Aprendi, então, a tentar construir um pequeno espaço entre observar e falar.

Nem sempre consigo.

Primeiro observo.

Depois deixo aquilo conversar comigo.

Pondero.

Pergunto o que sei de fato e o que estou apenas supondo.

E só então tento escolher minhas palavras.

As melhores palavras raramente são as mais rápidas.

Essa educação do olhar também mudou a maneira como observo meus próprios filhos.

Ser mãe talvez seja uma das experiências mais fortes para ensinar que amar alguém não significa enxergar por ele.

Quando são pequenos, fazemos quase tudo.

Protegemos.

Escolhemos.

Orientamos.

Antecipamos perigos.

Então eles crescem.

E esse crescimento exige também uma transformação no olhar de quem é mãe.

Chega um momento em que precisamos enxergar diante de nós não apenas o filho que queremos proteger, mas uma pessoa construindo o próprio país, tomando decisões, fazendo escolhas, acertando e errando.

Amar continua sendo amar.

Mas a forma precisa amadurecer.

Nem sempre é fácil.

Talvez algumas das minhas maiores aprendizagens tenham acontecido justamente quando precisei perceber que ajudar nem sempre significa interferir.

Às vezes significa estar perto.

Outras vezes, perguntar.

Às vezes aconselhar.

E algumas vezes suportar o desconforto de assistir alguém que amamos aprender uma lição que não podemos aprender em seu lugar.

Isso exige outro tipo de olhar.

Um olhar que não confunde amor com posse.

Cuidado com controle.

Presença com governo.

Talvez por isso este capítulo venha justamente depois do País Interior.

Quando comecei a compreender que cada pessoa possui um território que lhe pertence, também precisei aprender a olhar para os outros respeitando suas fronteiras.

E precisei olhar para mim com a mesma honestidade.

Não quero um olhar ingênuo.

Não acredito que educar o olhar signifique enxergar bondade em tudo ou encontrar uma justificativa para qualquer comportamento.

Há coisas erradas.

Há injustiças.

Há pessoas das quais precisamos nos afastar.

Há limites que precisam ser colocados.

Há momentos em que enxergar com clareza significa finalmente parar de suavizar aquilo que está diante de nós.

Um olhar educado não é um olhar cego para o mal.

Talvez seja justamente o contrário.

É um olhar capaz de reconhecer a realidade sem precisar deformá-la para odiar alguém.

Essa diferença se tornou importante para mim.

Posso reconhecer que uma pessoa agiu mal sem transformar toda a existência dela naquele ato.

Posso reconhecer aquilo que alguém fez comigo sem negar o que aconteceu.

Posso também estabelecer uma fronteira.

Posso sair.

Posso não permitir novamente.

Mas não preciso carregar aquela pessoa dentro de mim para sempre.

Essa liberdade demorou a chegar.

E ainda está sendo aprendida.

Quanto mais observo minha história, mais percebo que Deus esteve presente também nessa educação do meu olhar.

Nem sempre por meio das respostas que eu gostaria de ter recebido.

Às vezes por meio de uma pessoa.

De uma conversa.

De uma perda.

De um fracasso.

De um conflito.

De uma criança.

De alguém mais velho.

De uma despedida.

De uma amizade.

Do balcão de uma loja.

Até de uma fotografia rasgada.

Algumas aulas chegaram pela alegria.

Outras vieram vestidas de sofrimento.

Eu teria escolhido as primeiras.

Certamente.

Mas nem sempre escolhemos a sala de aula.

E talvez uma das mudanças mais profundas em mim tenha acontecido quando parei de perguntar apenas:

Por que isso aconteceu comigo?

e comecei, algumas vezes, a conseguir perguntar:

O que ainda não estou enxergando aqui?

Não faço isso para encontrar uma lição bonita em toda dor.

Algumas coisas doem e pronto.

Algumas perdas continuam sendo perdas.

Algumas injustiças não precisam ganhar um laço para se tornarem aceitáveis.

Mas mesmo uma experiência que eu jamais escolheria pode revelar alguma coisa sobre mim.

Um limite.

Uma fragilidade.

Uma força que eu desconhecia.

Uma escolha que preciso rever.

Uma fronteira que deveria ter colocado antes.

Ou simplesmente a certeza de que aquele é um caminho pelo qual não quero voltar a passar.

Talvez seja assim que a vida educa nosso olhar.

Não nos entregando uma interpretação pronta, mas ampliando pouco a pouco aquilo que somos capazes de perceber.

Hoje sei que ainda tenho pontos cegos.

Sei que minhas memórias não são fotografias perfeitas dos acontecimentos.

Sei que minhas emoções interferem naquilo que vejo.

Sei que posso estar certa sobre um fato e errada sobre a intenção de alguém.

Sei também que posso compreender uma pessoa e, ainda assim, não concordar com ela.

Essas coisas deixaram de parecer contradições.

São apenas parte da complexidade de enxergar.

Talvez a maturidade não esteja em chegar ao momento em que finalmente vemos tudo com clareza.

Desconfio de quem acredita ter chegado lá.

Inclusive quando essa pessoa sou eu.

Prefiro pensar que amadurecer seja aprender a ajustar o foco.

A mudar de posição quando necessário.

A perceber o que ficou fora do enquadramento.

A reconhecer quando a imagem está sendo distorcida por uma lente antiga.

E, principalmente, a não confundir aquilo que consigo enxergar hoje com a totalidade da verdade.

Continuo tendo convicções.

Continuo tomando decisões.

Continuo estabelecendo limites.

Continuo olhando para algumas situações e dizendo: isso está errado.

A diferença talvez seja que hoje consigo deixar uma pequena janela aberta.

Não para que qualquer opinião entre e leve embora aquilo em que acredito.

Mas para que a verdade tenha por onde entrar quando eu estiver enganada.

Por isso já não peço apenas respostas.

Peço também olhos atentos.

Humildade para rever.

Prudência para não concluir depressa.

Coragem para enxergar aquilo que eu preferiria não ver.

Sensibilidade para perceber quem está diante de mim.

E sabedoria para reconhecer quando falar, quando agir e quando simplesmente permanecer em silêncio.

Porque meus olhos continuarão vendo enquanto eu viver.

Mas meu olhar...

esse ainda está sendo educado.

 

 
 
 

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