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Capítulo 3 — As Lentes da Alma

  • há 5 dias
  • 9 min de leitura

Capítulo 3 — As Lentes da Alma

“Os olhos recebem a luz. Mas não são eles, sozinhos, que enxergam. Entre os olhos e a alma existe um longo caminho. E, nesse percurso, estão as lentes através das quais interpretamos a vida. ”

No capítulo anterior falei sobre educar o olhar.

Mas existe uma pergunta que vem antes mesmo daquilo que fazemos com o que vemos:

Com quais lentes estou olhando?

Durante muitos anos imaginei que enxergar fosse um ato simples.

Bastava abrir os olhos.

Hoje sei que não.

Duas pessoas podem assistir à mesma cena e sair contando histórias completamente diferentes.

Os fatos foram os mesmos.

Os olhos também.

O que mudou foi aquilo que aconteceu no caminho entre a imagem e a interpretação.

Porque nós não enxergamos apenas com os olhos.

Enxergamos também com a história que carregamos.

Com nossas memórias.

Nossas alegrias.

Nossas dores.

Nossos medos.

Nossas crenças.

Nossos valores.

Nossos conhecimentos.

Nossos preconceitos.

Nossas esperanças.

Cada uma dessas estruturas pode funcionar como uma lente.

E toda lente destaca algumas partes da realidade enquanto deixa outras menos visíveis.

Talvez minha profissão de fotógrafa tenha me preparado para compreender isso muito antes de eu conseguir colocar em palavras.

Durante anos trabalhei com lentes de verdade.

Eu sabia que uma lente não inventava a cena diante de mim.

A cena existia.

Mas a lente interferia profundamente na maneira como eu conseguia registrá-la.

Uma aproximava.

Outra ampliava o campo.

Uma profundidade de foco destacava uma pessoa e fazia o fundo desaparecer.

Outra permitia que quase tudo permanecesse visível.

O objeto fotografado continuava ali.

Mas aquilo que aparecia na fotografia dependia também da lente que eu havia escolhido.

Demorei para perceber o quanto fazemos isso na vida.

A realidade existe

Dizer que enxergamos através de lentes diferentes não significa dizer que não existe verdade.

Isso seria simples demais.

A realidade continua existindo.

Um fato não deixa de ter acontecido porque eu o interpretei de outra maneira.

Uma palavra dita não volta para a boca porque depois encontrei uma explicação para ela.

Uma atitude não desaparece porque compreendi a dor de quem a praticou.

As lentes não criam a realidade.

Elas interferem na nossa capacidade de percebê-la.

E talvez justamente por isso duas pessoas honestas possam chegar a conclusões diferentes diante do mesmo acontecimento.

Nem sempre uma delas está mentindo.

Talvez estejam olhando por lentes diferentes.

Essa compreensão me trouxe alguma humildade.

Porque durante muito tempo achei que aquilo que eu enxergava fosse simplesmente aquilo que existia.

Não pensava:

Esta é a minha interpretação.

Pensava:

É assim.

Existe uma diferença enorme entre essas duas frases.

As lentes que carregamos

Algumas lentes foram construídas muito cedo.

Uma criança que foi constantemente criticada talvez cresça prestando atenção especial aos sinais de desaprovação.

Uma pessoa que sofreu uma traição pode se tornar mais sensível a comportamentos que lhe lembrem aquela experiência.

Alguém que passou por dificuldades financeiras talvez olhe para dinheiro de maneira muito diferente de quem nunca viveu a falta.

Isso não significa que essas pessoas estejam condenadas a enxergar o mundo dessa forma para sempre.

Significa apenas que nossas experiências deixam marcas também na maneira como interpretamos aquilo que acontece.

Eu mesma consigo perceber isso quando volto à minha história.

Houve momentos em que interpretei situações com a lente do cansaço.

Em outros, com a lente do medo.

Algumas vezes foi a necessidade de proteger alguém.

Outras, minha própria necessidade de ser compreendida.

E certamente houve situações em que o orgulho também colocou seus óculos em mim sem pedir licença.

Naquele momento, porém, eu não pensava:

Estou olhando pela lente do orgulho.

Eu apenas tinha certeza de que estava certa.

Talvez essa seja uma das características mais perigosas de algumas lentes:

quando estamos usando-as, nem sempre percebemos que estão ali.

A lente do medo

O medo é uma lente poderosa.

Ele pode ser necessário.

Foi feito também para nos proteger.

Diante de um risco verdadeiro, o medo nos deixa atentos.

Mas, quando assume sozinho a interpretação de uma situação, começa a transformar possibilidades em ameaças.

Uma demora pode virar abandono.

Uma mudança pode parecer desastre.

Uma dificuldade pode ser interpretada como anúncio de que tudo dará errado.

E o corpo reage à interpretação como se aquilo já estivesse acontecendo.

Eu vivi períodos em que havia tantos problemas acontecendo ao mesmo tempo que minha mente parecia estar permanentemente procurando o próximo.

Resolvia um e já esperava outro.

Quando vivemos assim por algum tempo, precisamos cuidar para não começar a enxergar perigo até onde existe apenas incerteza.

Nem toda nuvem anuncia tempestade.

Mas quem acabou de atravessar uma pode olhar para o céu de outra maneira.

 

A lente da carência

A carência também interpreta.

Um silêncio pode parecer rejeição.

Uma ausência pode parecer falta de amor.

Uma pessoa ocupada pode parecer indiferente.

E, quando estamos olhando através dessa lente, podemos começar a exigir dos outros respostas para dores que talvez nem tenham sido causadas por eles.

Hoje consigo reconhecer isso melhor do que reconhecia no passado.

Nem sempre aquilo que espero receber do outro pertence ao outro entregar.

Essa descoberta não eliminou minhas necessidades afetivas.

Apenas me ajudou a observá-las antes de transformá-las em acusações.

A lente da raiva

A raiva faz outra coisa.

Ela estreita o enquadramento.

Quando estamos muito feridos ou indignados, existe uma tendência de reduzir a pessoa ao ato que nos atingiu.

Tudo o que ela já foi desaparece.

Tudo o que fez de bom perde importância.

A fotografia fica congelada naquele instante.

Isso não significa que devemos ignorar aquilo que alguém fez.

Há atitudes que exigem limites.

Há relações das quais precisamos sair.

Há coisas que não podem ser normalizadas em nome da compreensão.

Mas uma pessoa continua sendo maior do que o pior enquadramento que conseguimos fazer dela.

E isso vale também para nós.

Eu não gostaria de ser definida para sempre pelo pior momento da minha vida.

Então procuro não fazer isso com os outros.

Nem sempre consigo imediatamente.

Mas hoje pelo menos reconheço quando minha lente começa a estreitar demais a imagem.

A lente do orgulho

Talvez o orgulho seja uma das lentes mais difíceis de identificar.

Porque ele possui uma característica curiosa:

faz com que a nossa versão dos fatos pareça extraordinariamente razoável.

O orgulho raramente chega dizendo:

Estou aqui.

Ele chega dizendo:

Você está certa.

Você já explicou.

O outro é que não quer entender.

Você não precisa rever nada.

E a mente, que é muito competente, começa a reunir provas para sustentar a acusação.

Conheço esse mecanismo.

Já o usei.

Ainda preciso cuidar para não usá-lo novamente.

Foi por isso que aprendi a valorizar tanto uma pergunta:

Será que existe outra maneira de olhar para isso?

Não significa abandonar minha primeira interpretação.

Significa apenas submetê-la a uma segunda análise.

Às vezes olho novamente e concluo:

Não. Eu estava vendo corretamente.

Outras vezes percebo um detalhe que havia deixado passar.

E algumas vezes preciso admitir:

Eu estava errada.

Trocar de lente não muda o fato

Essa talvez seja uma das distinções mais importantes.

Trocar de lente não significa modificar os fatos para que se tornem mais agradáveis.

Posso olhar para uma experiência dolorosa anos depois e compreendê-la melhor.

O fato continua sendo o mesmo.

O que muda é aquilo que consigo enxergar ao redor dele.

Hoje, por exemplo, quando volto a determinadas situações da minha vida, consigo perceber coisas que naquele momento estavam fora do meu campo de visão.

Consigo enxergar minha própria participação.

Consigo perceber sinais que ignorei.

Consigo reconhecer quando permaneci além do que deveria.

Consigo também olhar para algumas escolhas minhas com mais misericórdia, porque hoje conheço o cansaço, o medo ou a falta de recursos emocionais daquela mulher.

Compreender não apaga.

Mas amplia.

É como pegar uma fotografia que durante anos vimos muito aproximada e, de repente, abrir o enquadramento.

O que estava no centro continua lá.

Mas agora existe contexto.

A lente da misericórdia

Durante muito tempo talvez eu tenha confundido misericórdia com passar a mão na cabeça.

Hoje não.

Misericórdia não precisa negar a verdade.

Posso reconhecer que alguém errou e ainda me perguntar o que aquela pessoa carregava quando fez aquilo.

Posso estabelecer uma fronteira sem desejar vingança.

Posso não permitir novamente e, ainda assim, não transformar o outro em inimigo permanente dentro de mim.

Posso inclusive olhar para mim dessa maneira.

Essa talvez tenha sido uma das lentes que mais precisei aprender a usar.

Porque existe também uma forma cruel de olhar para a própria história.

Pegamos aquilo que sabemos hoje e usamos para condenar a pessoa que éramos dez, vinte ou trinta anos atrás.

Mas aquela mulher não sabia tudo o que sei agora.

Ela tomou decisões com os recursos que possuía.

Algumas foram boas.

Outras não.

Tenho responsabilidade por elas.

Mas não preciso voltar ao passado todos os dias para puni-la novamente.

Posso aprender.

Posso reparar o que ainda for possível.

E posso seguir.

Os professores das minhas lentes

Quando olho para trás, percebo que tive muitos professores.

Alguns ensinaram pelo exemplo.

Mostraram-me formas de viver que admiro.

Outros me ensinaram pelos próprios erros.

Algumas pessoas ampliaram minhas lentes.

Outras me mostraram lentes que eu não gostaria de usar.

Houve ensinamentos em livros.

Mas houve também no balcão da loja.

Nas conversas com meus filhos.

Na fotografia.

Na convivência com pessoas mais velhas.

Nas amizades.

Nos conflitos.

Nas perdas.

Nos erros.

Nos momentos em que alguém teve coragem de me contrariar.

E naqueles em que a própria vida desmontou uma certeza que eu defendia com muita convicção.

Nem todos esses professores sabiam que estavam ensinando.

Alguns certamente jamais saberão.

E talvez eu também tenha sido professora de alguém sem perceber.

Para o bem e para o mal.

Pensar nisso aumenta minha responsabilidade sobre a maneira como vivo.

Algumas lentes precisam ser limpas

Uma lente não precisa ser jogada fora toda vez que está embaçada.

Às vezes precisa apenas ser limpa.

Uma experiência ruim pode deixar resíduos.

Uma palavra pode permanecer.

Uma humilhação.

Uma rejeição.

Uma traição.

Um fracasso.

Se não cuidarmos, começamos a olhar para novas pessoas através daquilo que uma pessoa antiga fez.

O novo relacionamento paga a dívida do anterior.

O novo funcionário responde pelo erro daquele que veio antes.

O filho recebe uma reação desproporcional porque tocou numa ferida que começou em outro lugar.

A situação presente torna-se tela de projeção de uma história antiga.

Talvez limpar a lente seja justamente aprender a perguntar:

Isso pertence a este momento?

Ou estou trazendo alguma coisa de outro tempo para cá?

Nem sempre a resposta é agradável.

Mas pode ser libertadora.

Algumas lentes precisam ser substituídas

Outras vezes não basta limpar.

Há crenças que carregamos durante tanto tempo que nem lembramos de onde vieram.

Sobre dinheiro.

Sobre casamento.

Sobre sucesso.

Sobre corpo.

Sobre maternidade.

Sobre homens.

Sobre mulheres.

Sobre religião.

Sobre trabalho.

Sobre nós mesmos.

Algumas nos foram ensinadas por pessoas que amávamos.

Outras nasceram de experiências.

Algumas talvez tenham nos protegido durante determinado período.

Mas uma lente que foi útil em algum momento pode deixar de servir.

Foi libertador compreender isso.

Eu não estava condenada a interpretar o mundo para sempre da mesma maneira.

Podia aprender.

Podia estudar.

Podia conversar.

Podia observar outras histórias.

Podia amadurecer.

Podia até mudar de opinião sem considerar isso uma derrota.

Talvez uma das maiores evidências de crescimento seja justamente conseguir dizer:

Eu pensava assim. Hoje penso diferente.

E Deus?

Minha fé também participa da maneira como enxergo.

Não consigo separar completamente uma coisa da outra.

Mas aprendi que dizer que estou olhando pela fé não me concede automaticamente uma lente perfeita.

Continuo humana.

Continuo interpretando.

Continuo sujeita ao medo, ao orgulho, à pressa e às minhas próprias limitações.

Por isso hoje já não peço a Deus apenas que me mostre aquilo que desejo compreender.

Peço também que ajuste meu olhar.

Que me permita enxergar aquilo que minhas certezas escondem.

Que me dê humildade quando eu estiver errada.

Prudência quando eu souber pouco.

Coragem quando a verdade exigir uma decisão.

Misericórdia quando eu estiver olhando para a fragilidade de alguém.

E discernimento para não chamar de misericórdia aquilo que é apenas medo de estabelecer um limite.

Talvez Deus não retire todas as nossas lentes.

Talvez Ele nos ensine a reconhecê-las.

A lente e a verdade

Quanto mais penso sobre isso, menos desejo possuir uma lente perfeita.

Não acredito mais que ela exista deste lado da vida.

Prefiro permanecer ensinável.

Quero conseguir olhar para aquilo em que acredito e ainda perguntar:

O que estou deixando de ver?

Quero ouvir uma pessoa sem precisar concordar com tudo o que ela diz.

Quero sustentar uma convicção sem transformar quem pensa diferente em inimigo.

Quero reconhecer um erro sem reduzir alguém ao erro.

Quero olhar para minha própria história sem falsificá-la para parecer melhor — e sem deformá-la para me condenar eternamente.

Quero aprender a trocar de lente quando a verdade exigir.

Talvez seja isso que a sabedoria faça conosco.

Ela não muda a realidade.

Muda nossa capacidade de percebê-la.

A fotografia me ensinou que uma lente pode aproximar, afastar, ampliar, destacar e desfocar.

A vida me ensinou algo ainda mais importante:

preciso saber qual lente está diante dos meus olhos antes de confiar completamente na imagem que estou vendo.

Por isso, quando alguma coisa me provoca uma reação muito rápida, procuro fazer uma pequena pausa.

Nem sempre consigo.

Mas tento.

E faço a pergunta que aprendi a carregar comigo:

Será que existe outra maneira de olhar para isso?

Às vezes existe.

Às vezes não.

Mas só o fato de perguntar já abre uma fresta.

E talvez seja por essa fresta que uma verdade maior consiga entrar.

Porque a realidade não muda quando troco de lente.

Quem muda sou eu.

E quanto mais educadas forem as lentes da minha alma, mais perto estarei de enxergar aquilo que realmente está diante de mim.

 

 
 
 

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