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Capítulo 4 — Os Pontos Cegos

  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

Capítulo 4 — Os Pontos Cegos

“O maior perigo não é possuir pontos cegos. É acreditar que não os possuímos. ”

Na vida, todos somos motoristas.

Cada pessoa conduz a própria história. Toma decisões, escolhe caminhos, acelera, freia, faz retornos e, às vezes, muda completamente de direção.

Podemos aprender a dirigir melhor.

Podemos adquirir experiência.

Podemos nos tornar prudentes, atentos, responsáveis.

Mas existe algo que nenhum motorista consegue eliminar completamente:

os pontos cegos.

No trânsito, eles são aquelas regiões que os espelhos não alcançam. O motorista pode olhar para a frente, consultar os retrovisores, conhecer muito bem o veículo e, ainda assim, haverá um espaço fora do seu campo de visão.

O problema não está na existência desse espaço.

O perigo começa quando ele muda de faixa acreditando que viu tudo.

Na vida acontece algo parecido.

Durante muito tempo, talvez eu tenha associado maturidade à capacidade de enxergar cada vez mais.

E continuo acreditando que amadurecer amplia nossa visão.

Mas hoje, aos 52 anos, percebo que existe uma segunda parte desse aprendizado:

amadurecer também é reconhecer tudo aquilo que ainda não consigo enxergar.

Aquilo que não vemos

No capítulo anterior falei sobre as lentes através das quais interpretamos a realidade.

As lentes podem ser examinadas.

Posso perguntar se estou olhando através do medo, da raiva, do orgulho, da carência, da prudência ou da esperança.

Mas o ponto cego é diferente.

A lente interfere naquilo que estou vendo.

O ponto cego está justamente naquilo que não estou vendo.

E como perceber uma coisa que está fora do nosso campo de visão?

Essa pergunta me acompanha.

Porque, quando volto à minha própria história, consigo encontrar situações que hoje compreendo de maneira diferente.

Não porque os fatos tenham mudado.

Eu mudei.

Hoje tenho informações que não possuía.

Conheço consequências que naquela época ainda não haviam acontecido.

Aprendi sobre comportamento humano.

Estudei.

Observei.

Errei.

Acertei.

Ouvi outras pessoas.

Vivi mais.

E algumas coisas que eram invisíveis para aquela Marta se tornaram bastante claras para esta.

Isso não faz daquela mulher menos inteligente.

Ela simplesmente não conseguia enxergar o que ainda estava fora do alcance de seus espelhos.

E certamente acontece o mesmo comigo agora.

Existem coisas que a Marta de amanhã perceberá e que a Marta de hoje ainda não consegue ver.

Essa constatação poderia me incomodar.

Curiosamente, faz o contrário.

Ela me dá humildade.

E também alguma liberdade.

Nem a experiência elimina os pontos cegos

Passei boa parte da vida profissional trabalhando com organização.

Na loja, os controles sempre foram importantes para mim.

Eu queria saber quanto vendíamos, quantos clientes atendíamos, qual era o ticket médio, o que precisava ser comprado, o que estava funcionando e o que precisava ser corrigido.

Planejava.

Anotava.

Comparava.

Fazia contas.

Criava estratégias.

Não porque os números pudessem decidir tudo por mim, mas porque me ajudavam a enxergar melhor aquilo que estava acontecendo.

Aprendi cedo que administrar apenas pela impressão podia ser perigoso.

O movimento da loja podia parecer excelente, mas os números contavam outra história.

Ou um período aparentemente fraco podia esconder um resultado melhor do que eu imaginava.

Os registros funcionavam como espelhos.

Mas havia uma limitação que nenhuma planilha conseguia resolver:

eu só podia controlar aquilo que sabia que precisava observar.

Não existe coluna para a informação que desconhecemos.

Não há relatório capaz de medir aquilo que sequer imaginamos estar acontecendo.

A experiência ajuda muito.

O conhecimento também.

Mas nenhum deles nos torna oniscientes.

Talvez, algumas vezes, aconteça justamente o contrário: quanto mais experientes nos tornamos, maior o risco de confiar demais naquilo que já sabemos.

É quando a experiência deixa de ser uma janela e pode começar a virar parede.

Até nossas virtudes podem esconder alguma coisa

Essa foi uma descoberta particularmente desconfortável.

Durante muito tempo pensei nos pontos cegos como falhas.

Hoje percebo que até nossas melhores características podem produzi-los.

Uma pessoa que valoriza profundamente a justiça pode se tornar severa demais sem perceber.

Quem tem grande capacidade de acolher pode demorar para estabelecer limites.

Quem é muito racional pode desconsiderar aquilo que não cabe numa explicação lógica.

Quem é muito sensível pode, em alguns momentos, tratar sentimentos como se fossem provas.

Quem é extremamente responsável pode começar a assumir responsabilidades que pertencem aos outros.

Quem está acostumado a resolver problemas pode ter dificuldade para perceber quando deveria simplesmente parar de tentar resolvê-los.

Reconheço-me em algumas dessas possibilidades.

Durante muitos anos fui a pessoa que fazia.

Se havia um problema, eu procurava uma solução.

Se faltava alguma coisa, tentava providenciar.

Se precisava organizar, organizava.

Se precisava aprender, estudava.

Essa disposição me ajudou muito.

Construiu coisas.

Sustentou outras.

Abriu caminhos.

Mas até uma qualidade útil precisa ser governada.

Porque existe uma distância pequena entre ser alguém capaz de resolver e começar a acreditar, mesmo sem perceber, que tudo depende de nós.

Uma virtude sem medida também pode esconder parte da estrada.

Quanto maior o veículo...

Existe uma razão para caminhões terem tantos espelhos.

Eles são maiores.

Transportam mais peso.

O motorista precisa administrar uma estrutura muito mais complexa do que alguém conduzindo um pequeno automóvel.

E justamente por isso possui mais áreas que não consegue visualizar sozinho.

Quanto maior o veículo, maior a responsabilidade de conferir os espelhos.

Essa imagem me fez pensar na vida.

Houve períodos em que eu carregava muitas responsabilidades simultaneamente.

Eu era mãe.

Empresária.

Fotógrafa.

Administrava loja.

Atendia clientes.

Tomava decisões.

Participava de projetos.

Cuidava de contas.

Planejava.

Criava.

Tentava resolver questões pessoais e profissionais que, muitas vezes, aconteciam ao mesmo tempo.

Quanto maior se tornava a estrutura que eu precisava conduzir, menos razoável seria imaginar que conseguiria enxergar tudo sozinha.

Isso vale para mim.

Vale para pais.

Para empresários.

Professores.

Líderes.

Pregadores.

Governantes.

Para qualquer pessoa cuja decisão alcance outras vidas.

Quanto maior a influência, maior deveria ser a humildade.

Não porque essas pessoas saibam menos.

Mas porque suas decisões carregam mais peso.

Precisamos de espelhos

Um motorista não considera uma fraqueza olhar pelo retrovisor.

Não se sente menos competente porque o carro possui espelhos.

Ele sabe que precisa deles justamente porque seus olhos têm limites.

Por que, então, temos tanta dificuldade em aceitar espelhos na vida?

Eles aparecem de muitas formas.

Um amigo sincero pode ser um espelho.

Um filho pode ser.

Uma conversa difícil.

Um livro.

Uma experiência que não terminou como esperávamos.

Uma pessoa que pensa diferente.

Uma crítica justa.

O silêncio.

A oração.

Até um erro pode se transformar em espelho, se tivermos coragem de olhar para ele sem gastar toda a nossa energia procurando um culpado.

Mas nem todo espelho é bom.

Há espelhos que deformam.

Pessoas que projetam sobre nós suas próprias frustrações.

Opiniões dadas sem conhecimento.

Críticas feitas apenas para ferir.

Por isso não se trata de aceitar tudo o que dizem a nosso respeito.

Trata-se de não rejeitar automaticamente tudo aquilo que nos contraria.

Às vezes, a frase que mais incomoda merece uma segunda escuta.

Não necessariamente porque esteja certa.

Mas porque pode apontar para alguma coisa que ainda não examinamos.

Procurar defeitos ou procurar padrões

Com o tempo comecei a observar mais os padrões do comportamento humano.

Inclusive os meus.

E existe uma diferença importante entre procurar defeitos e procurar padrões.

Quando procuro apenas defeitos, corro o risco de terminar na condenação.

Quando procuro padrões, abro espaço para aprender.

Um acontecimento isolado pode significar muitas coisas.

Mas, quando situações semelhantes começam a se repetir, talvez exista ali alguma informação.

Por que determinado conflito sempre volta?

Por que certas situações me atingem de maneira tão intensa?

Por que reajo de forma parecida diante de pessoas diferentes?

Por que continuo chegando ao mesmo lugar depois de escolher caminhos que pareciam tão distintos?

A repetição não prova automaticamente nada.

Mas merece investigação.

Às vezes passamos anos tentando modificar as pessoas ao redor sem perceber que existe uma única pessoa presente em todas aquelas histórias:

nós mesmos.

Isso não significa assumir a culpa por tudo.

Seria outra distorção.

Significa apenas incluir a nós mesmos entre as possibilidades que precisam ser examinadas.

Nós não conhecemos completamente as intenções dos outros

Talvez um dos maiores pontos cegos das relações humanas seja acreditar que sabemos por que alguém fez determinada coisa.

Nós vemos comportamentos.

Ouvimos palavras.

Conhecemos alguns fatos.

E então preenchemos os espaços vazios.

“Fez isso porque...”

“Falou aquilo porque...”

“Ela queria...”

“Ele pensou...”

Às vezes acertamos.

Às vezes não.

O problema é que uma interpretação repetida muitas vezes dentro da própria cabeça começa a adquirir aparência de fato.

Eu também já fiz isso.

E provavelmente ainda farei se não prestar atenção.

Posso analisar uma atitude.

Posso identificar um padrão.

Posso estabelecer limites a partir do comportamento que estou vendo.

Mas preciso conservar alguma prudência quando entro no território das intenções.

Porque existe uma parte do outro à qual eu simplesmente não tenho acesso.

Somente Deus conhece plenamente o coração humano.

Essa compreensão não me impede de julgar uma atitude quando preciso.

Impede-me apenas de acreditar que, ao julgar a atitude, passei a conhecer a pessoa inteira.

“Eu tenho certeza”

Existem situações em que precisamos ter certezas.

Não pretendo transformar dúvida em virtude universal.

Há fatos.

Há valores.

Há coisas que sabemos.

Mas aprendi a desconfiar um pouco mais daquela certeza que aparece rápido demais justamente quando estou emocionalmente envolvida.

Hoje existe uma pergunta que considero mais útil:

O que será que ainda não consegui enxergar?

Ela não significa:

Estou errada.

Significa:

Talvez eu ainda não tenha todas as informações.

Existe uma enorme diferença.

Essa pergunta não enfraquece minha inteligência.

Ao contrário.

Obriga minha inteligência a continuar trabalhando depois de encontrar a primeira resposta.

Pessoas inteligentes conseguem encontrar respostas.

Pessoas sábias continuam fazendo perguntas.

E tenho descoberto que uma boa pergunta pode ser mais valiosa do que uma resposta precipitada.

Olhar para trás sem trapacear

Existe ainda um ponto cego curioso: aquele que só conseguimos reconhecer depois que o tempo passou.

Hoje olho para determinadas decisões minhas e penso:

Como eu não percebi aquilo?

Mas essa pergunta pode ser injusta.

Porque estou julgando a Marta daquele momento usando informações que ela só recebeu depois.

É uma espécie de trapaça do tempo.

Agora conheço o final da história.

Ela não conhecia.

Agora vejo o desenho completo.

Ela estava dentro dele.

Agora algumas pessoas já mostraram quem eram.

Naquele momento, talvez ainda não.

Agora conheço consequências.

Naquele momento existiam apenas possibilidades.

Por isso, quando revisito minha história, procuro fazer duas coisas ao mesmo tempo:

assumir responsabilidade pelo que fiz e respeitar os limites daquilo que eu conseguia enxergar.

Não quero usar os pontos cegos como desculpa.

Mas também não quero usar a lucidez de hoje como instrumento para condenar eternamente a mulher de ontem.

Prefiro aprender com ela.

E os meus pontos cegos de hoje?

Talvez essa seja a pergunta mais interessante deste capítulo.

Porque é muito fácil descobrir os pontos cegos do passado.

Depois que tudo aconteceu, eles parecem óbvios.

Difícil é descobrir os de agora.

Quais são as coisas que neste momento acredito compreender perfeitamente e que, daqui a alguns anos, enxergarei de outra maneira?

Em que área estou tão convencida de estar certa que parei de fazer perguntas?

Que comportamento meu as pessoas próximas conseguem perceber e eu ainda não?

Que virtude minha está ultrapassando a medida e começando a produzir um problema?

Não sei.

Se soubesse, talvez já não fosse ponto cego.

É justamente aí que entram os bons espelhos.

E a humildade para consultá-los.

Permanecer ensinável

Talvez Deus nunca tenha esperado que enxergássemos tudo.

Se esperasse, teria nos criado oniscientes.

Não criou.

Deu-nos inteligência.

Consciência.

Capacidade de aprender.

Pessoas ao nosso redor.

Experiências.

Conhecimento.

E a possibilidade de rever caminhos.

Talvez por isso a humildade tenha se tornado tão preciosa para mim.

Não aquela humildade que diminui a própria capacidade.

Mas aquela que conhece os limites dela.

Posso ser competente e estar errada.

Posso ser experiente e não possuir uma informação importante.

Posso ter boas intenções e produzir um resultado ruim.

Posso conhecer muito sobre determinado assunto e ainda aprender alguma coisa com alguém que conhece menos.

Posso olhar para uma situação várias vezes e, somente na quarta, perceber aquilo que esteve diante de mim desde a primeira.

Isso não diminui quem sou.

Apenas me lembra que sou humana.

Aos 52 anos, não tenho a pretensão de finalmente enxergar a estrada inteira.

Na verdade, quanto mais caminho, mais compreendo o tamanho dela.

E talvez amadurecer não seja finalmente conseguir enxergar tudo.

Talvez seja perder a pretensão de que um dia conseguiremos.

Hoje sei que continuarei tendo pontos cegos.

A diferença é que já não quero dirigir fingindo que eles não existem.

Quero bons espelhos.

Pessoas sinceras.

Conhecimento.

Experiência.

Silêncio.

Oração.

E humildade suficiente para olhar novamente quando alguma coisa não fizer sentido.

Quero continuar capaz de perguntar:

O que será que ainda não consegui enxergar?

Porque o maior perigo nunca esteve naquilo que meus olhos não alcançam.

Está em acreditar que alcançam tudo.

 

 
 
 

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