top of page

Capítulo 8 — A Linguagem da Alma

  • há 5 dias
  • 8 min de leitura

Capítulo 8 — A Linguagem da Alma


“A alma nunca permanece completamente silenciosa. Mesmo quando a boca se cala, ela encontra maneiras de se expressar. ”


Há coisas que a boca não diz.

Há coisas que os olhos dizem.

Há coisas que o corpo revela.

E há coisas que permanecem dentro de nós, acontecendo silenciosamente, enquanto conversamos com alguém.

Talvez por isso os olhos sejam tão fascinantes.

Costumamos dizer que os olhos são as janelas da alma. Mas, pensando melhor, entre o olho humano e a alma existe um grande percurso.

O olho vê.

A imagem entra.

A mente interpreta.

A alma recebe.

E, entre uma coisa e outra, existem as lentes.

Por isso, não basta enxergar.

É preciso aprender a olhar.

E, depois de olhar, aprender a interpretar o que se viu.

Talvez essa seja uma das grandes tarefas da educação da alma.

O olhar que observa

Observar sempre fez parte de mim.

Desde muito cedo eu percebia cenas, expressões, mudanças de tom, silêncios, gestos. Muitas vezes não tinha palavras para explicar o que estava percebendo, mas alguma coisa dentro de mim dizia:

— Presta atenção.

Hoje compreendo que observar não é simplesmente olhar.

Observar é permitir que aquilo que vemos percorra nosso interior.

É olhar para uma cena e conversar consigo mesma:

O que estou vendo?

O que pode estar acontecendo aqui?

O que esta pessoa talvez esteja sentindo?

O que é fato e o que é interpretação minha?

Preciso falar alguma coisa?

E, se eu falar, vou ajudar ou piorar?

É nesse pequeno intervalo entre perceber e reagir que começa a nascer o discernimento.

Os olhos que falam

Há pessoas que conversam muito com os olhos.

Minha filha Ana, por exemplo, sempre foi assim.

Lembro de uma conversa recente em que falávamos sobre coisas da juventude. Ela riu e disse:

— Eu nunca menti pra ti, mãe.

Olhei para ela.

E seus olhos pareciam dizer outra coisa:

Mentir, eu menti sim. Mas isso já passou.

Brinquei:

— Vou fingir que acredito.

Nós duas rimos.

Não havia cobrança naquela conversa.

A vida já havia andado.

Mas os olhos continuavam contando pequenas histórias.

Os olhos de Lurdes também me ensinaram alguma coisa.

Quando encontrei aquele vaso de azaleia que havia plantado quase um ano antes, sem saber para quem seria, ofereci a ela como presente.

Falamos sobre o tempo em que nós duas tiramos nossa CNH. Disse que havíamos sido guerreiras.

Os olhos dela se iluminaram.

Não foi necessário um discurso.

Havia alegria.

Memória.

Reconhecimento.

Uma história compartilhada.

E então veio aquele abraço apertado.

Às vezes, a alma encontra uma maneira de falar sem precisar organizar uma única frase.

Mas os olhos não são um detector de mentiras

Existe, porém, um cuidado importante.

Aprender a observar não significa transformar os olhos ou o corpo das pessoas em provas.

Alguém pode desviar o olhar porque está tímido.

Pode olhar fixamente porque está nervoso.

Pode piscar muito.

Corar.

Gaguejar.

Transpirar.

Cruzar os braços.

Mexer as mãos.

Mudar o tom de voz.

Tudo isso pode nos chamar a atenção.

Mas nenhum desses sinais, isoladamente, nos dá o direito de concluir com certeza o que existe dentro de alguém.

Observar é diferente de condenar.

A lente saudável percebe:

Há alguma coisa acontecendo.

Mas conserva a humildade de reconhecer:

Eu talvez ainda não saiba o que é.

Essa pequena diferença pode nos poupar de muitos julgamentos precipitados.

Quando duas almas conversam pelo olhar

 Certa vez, uma pessoa disse a alguém que eu conversava olhando nos olhos.

Para mim, isso sempre foi natural.

Quando alguém fala comigo, gosto de olhar.

Não para intimidar.

Não para investigar.

Não para descobrir uma mentira.

Olho porque quero estar presente.

Quero ver a pessoa.

Quero escutar também aquilo que não está sendo pronunciado.

E nem sempre o outro consegue sustentar esse olhar.

Pode ser timidez.

Pode ser desconforto.

Pode ser simplesmente a maneira daquela pessoa.

Um amigo, algumas vezes, desviou do meu olhar. Ele mesmo já disse que, quando fico muito séria, meu olhar “dá medo”.

Talvez meus olhos realmente comuniquem alguma coisa.

Porque podemos ficar em silêncio e, ainda assim, existir um diálogo.

A boca não fala.

Mas o outro percebe.

Há momentos em que duas pessoas parecem conversar sem dizer uma palavra.

Uma alma percebe a outra.

A voz interior

Existe, porém, uma voz ainda mais importante.

Aquela que fala conosco.

Durante muito tempo, quando criança, pensei que havia alguma coisa errada comigo porque existia dentro de mim uma voz que não parava.

Eu pensava.

Questionava.

Observava.

Interpretava.

Perguntava a mim mesma:

Por que isso aconteceu?

Isso está certo?

Por que essa pessoa falou assim?

Será que deveria ser diferente?

Eu não sabia que aquilo fazia parte da vida interior.

Mais tarde, quando meus filhos cresceram, expliquei a eles que eventualmente perceberiam essa “voz”: eram os pensamentos, o diálogo interno.

Hoje compreendo que essa voz pode ser uma grande companheira.

Mas ela também precisa ser educada.

Porque nem todo pensamento é verdade.

Nem toda interpretação é correta.

Nem toda reação merece ser obedecida.

A alma saudável não é aquela que deixa de pensar, sentir ou questionar.

É aquela que aprende a conversar consigo mesma.

Educar os olhos

Estou aprendendo a educar meus olhos.

Porque ver alguma coisa não me obriga a reagir.

Posso perceber e permanecer em silêncio.

Posso compreender sem interferir.

Posso discordar sem entrar em guerra.

Posso enxergar uma incoerência sem precisar corrigi-la.

Posso perceber uma dor sem invadir a pessoa.

Foi o que aconteceu com a cliente que rasgou suas fotografias.

Ela não precisou me explicar tudo.

Eu observei.

Vi a dor.

Vi a ação.

E pensei:

Se eu falar, o que vou produzir?

Eu poderia ter alimentado a raiva dela.

Poderia ter falado mal do rapaz.

Poderia ter colocado mais lenha numa fogueira que já estava acesa.

Preferi falar dela.

Da força que percebi nela.

Do caráter que consegui enxergar naquele pequeno intervalo.

Eu não precisava conhecer a história inteira para escolher palavras que não aumentassem a ferida.

Educar a boca

Os olhos percebem.

Mas a boca decide o que fará com parte daquilo que percebemos.

Há pessoas que sabem observar, mas não sabem calar.

Veem alguma coisa e imediatamente precisam comentar.

Sentem alguma coisa e precisam responder.

Pensam alguma coisa e precisam dizer.

Mas maturidade não é apenas saber falar.

É saber quando falar, como falar — e quando não falar.

Uma palavra pode construir.

Pode ferir.

Pode esclarecer.

Pode iniciar uma guerra.

Às vezes, uma pequena pausa antes de falar muda completamente aquilo que acontecerá depois.

É verdade?

É necessário?

É o momento?

A maneira como vou dizer ajudará?

Nem todo silêncio é omissão.

Alguns são sabedoria.

Educar os dedos

Hoje existe ainda outra boca.

Os dedos.

Eles digitam.

Respondem.

Comentam.

Encaminham.

Publicam.

Atacam.

Defendem.

Explicam.

E, às vezes, fazem em segundos aquilo que levará anos para ser consertado.

Aprender a educar os dedos talvez seja uma das formas modernas de domínio próprio.

Nem toda mensagem precisa de resposta.

Nem toda provocação precisa ser recebida.

Nem toda fotografia exige comentário.

Nem todo pensamento precisa ser enviado.

Nem toda emoção precisa virar texto.

Recentemente recebi mensagens de alguém que estava viajando, mostrando momentos aparentemente felizes.

Eu poderia ter iniciado uma longa conversa.

Não iniciei.

Observei.

Não senti necessidade de alimentar aquela conversa com “mil” mensagens.

E pensei:

Estou educando meus olhos. E, principalmente, estou educando meus dedos a não falar.

Talvez em outro tempo eu tivesse reagido de maneira diferente.

Dessa vez, simplesmente não precisei.

E isso também era liberdade.

Nem toda história que passa por nós nos pertence

Uma cliente certa vez veio à loja para imprimir um documento.

Enquanto digitava, algumas palavras que dizia em voz alta chegaram aos meus ouvidos. Depois recebi o texto e compreendi que se tratava de uma denúncia.

Eu não conhecia aquela história.

Não sabia quem tinha razão.

Não conhecia todos os fatos.

Observei.

Ela alternava entre euforia e serenidade.

Falava das consequências.

Falava em entregar o documento e ir embora para sua cidade.

Eu pensei que aquilo poderia trazer consequências para ela também.

Mas não disse tudo o que pensei.

Não me coloquei como juíza daquela história.

Fiz aquilo que estava ao meu alcance.

Cuidei do documento.

Preservei o sigilo.

Enviei o arquivo para ela e apaguei os registros na sua frente.

Depois ela foi embora.

Não voltou para fazer as cópias que havia dito que faria.

Talvez tenha reconsiderado.

Talvez tenha pensado melhor.

Talvez tenha seguido outro caminho.

Eu não sei.

E não preciso saber.

Aquela história atravessou o meu caminho por alguns minutos.

Minha participação terminou quando entreguei aquilo que me cabia.

Entre o que entra e o que sai

Tudo aquilo que entra pelos olhos pode provocar alguma coisa dentro de nós.

O que vemos pode despertar uma interpretação.

A interpretação pode despertar um sentimento.

O sentimento pode provocar pensamentos.

Os pensamentos podem produzir palavras.

As palavras podem se transformar em ações.

E as ações produzem consequências.

Existe, portanto, um percurso:

ver → interpretar → sentir → pensar → falar → agir → colher consequências.

É nesse percurso que a alma precisa ser educada.

Não escolhemos tudo aquilo que vemos.

Não escolhemos tudo aquilo que sentimos.

Nem sempre escolhemos o primeiro pensamento que aparece.

Mas podemos aprender a escolher o que faremos depois.

A alma não precisa obedecer a tudo o que sente

Minha voz interior pode dizer:

Vá embora.

Responda.

Diga o que pensa.

Corrija.

Defenda-se.

Não aceite isso.

Eu posso escutá-la.

Mas escutar não significa obedecer imediatamente.

Posso conversar comigo mesma.

Por quê?

É realmente necessário?

Isso é meu?

Estou diante de uma injustiça ou apenas de algo de que não gostei?

Preciso agir agora?

Qual será a consequência?

Durante muito tempo, talvez eu nem percebesse o espaço existente entre aquilo que acontecia comigo e minha reação.

Hoje percebo.

É um espaço pequeno.

Às vezes, dura segundos.

Mas cabe muita coisa dentro dele.

Ponderação.

Discernimento.

Serenidade.

Domínio próprio.

E escolha.

A linguagem da alma

Talvez a linguagem da alma seja muito maior do que aquilo que conseguimos ouvir.

Ela aparece nos olhos.

Na voz.

No silêncio.

No rosto.

Nas mãos.

Na postura.

Na maneira de escrever.

Naquilo que escolhemos dizer.

E também naquilo que escolhemos não dizer.

Mas existe uma linguagem ainda mais profunda:

a maneira como vivemos.

Porque nossas atitudes repetidas dizem quem estamos nos tornando.

Educar a alma, portanto, não é aprender a parecer uma pessoa equilibrada.

É tornar-se uma pessoa equilibrada.

Não é aprender a esconder o que sentimos.

É compreender o que sentimos.

Não é controlar os outros.

É aprender a governar a nós mesmos.

Não é descobrir os segredos das outras pessoas.

É aprender a enxergar melhor sem perder a humildade de reconhecer:

Posso estar vendo, mas talvez ainda não tenha compreendido tudo.

Essa frase protege a lente.

Protege o outro.

E protege a própria alma.

Um exercício

Quando alguma coisa chamar sua atenção, experimente não reagir imediatamente.

Pare.

Observe.

O que eu vi?

O que interpretei?

O que senti?

O que minha voz interior está dizendo?

Isso é fato ou interpretação?

Preciso falar?

Preciso escrever?

Preciso agir?

Ou posso simplesmente deixar passar?

E, antes de usar a boca ou os dedos, talvez baste mais uma pergunta:

O que sairá de mim produzirá vida ou produzirá mais confusão?

Nem tudo aquilo que percebemos precisa sair de nós.

Algumas coisas precisam ser compreendidas.

Outras precisam ser entregues a Deus.

E algumas precisam simplesmente se transformar em silêncio.

Uma última reflexão

Os olhos veem.

As lentes interpretam.

A voz interior conversa.

A boca comunica.

Os dedos registram.

O corpo manifesta.

E a alma escolhe.

Talvez seja esse o grande percurso daquilo que chamamos de linguagem da alma.

Quanto mais aprendemos a observá-lo, mais conscientes nos tornamos daquilo que deixamos sair de nós.

Ver é inevitável.

Interpretar é humano.

Reagir é uma escolha.

E escolher bem é parte da educação da alma.


“A alma nunca permanece escondida para sempre. Aquilo que cultivamos no País Interior encontrará, mais cedo ou mais tarde, uma linguagem para se revelar ao mundo. ”


Marta Braatz

Agosto, 2026.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
17- Gravidade

Gravidade Durante muito tempo, quando eu ouvia a palavra gravidade, minha mente fazia uma associação quase automática com aquilo que havia aprendido na escola. A força que nos mantém no chão. A força

 
 
 
Capítulo 16 - Responsabilidade

Capítulo 16 - Responsabilidade Durante muito tempo, para mim, responsabilidade significou uma coisa bastante simples: se precisa ser feito, faça. Demorei anos para compreender que essa definição estav

 
 
 

Comentários


Produtos relacionados

​Copyright © 2024 Marta Braatz. CNPJ: 13.237.120/0001-59
Avenida Farrapos, 427 - Centro, Alpestre/RS, 98480-000.
bottom of page