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Capítulo 9 — Autenticidade: A Alma sem Fantasia

  • há 5 dias
  • 9 min de leitura

Capítulo 9 — Autenticidade: A Alma sem Fantasia


“Autenticidade não é permanecer igual. É permanecer verdadeira enquanto se transforma. ”


Quem sou eu?

Não quem aprendi que deveria ser.

Não quem esperam que eu seja.

Não a pessoa que preciso parecer para ser aceita.

Quem sou eu quando retiro as funções, os títulos e as expectativas?

Essa parece uma pergunta simples.

Não é.

Ao longo da vida fui muitas Martas.

Fui menina.

Jovem.

Esposa.

Mãe.

Fotógrafa.

Comerciante.

Empresária.

Líder.

Filha.

Amiga.

Em cada uma dessas fases, aprendi, errei, acertei, mudei de opinião, desenvolvi habilidades, abandonei comportamentos e descobri outros lados de mim.

Não sou a mesma mulher que fui aos vinte anos.

Ainda bem.

A jovem que fui não possuía os conhecimentos que tenho hoje.

A mãe dos primeiros anos ainda estava aprendendo a ser mãe.

A fotógrafa iniciante precisou construir experiência.

A empresária tomou decisões que hoje talvez tomasse de outra maneira.

A mulher amadureceu.

Mas, quando olho para todas elas, não encontro estranhas.

Eu me reconheço.

Alguma coisa atravessou todas essas mulheres.

Talvez seja isso que eu tenha demorado tanto para compreender sobre autenticidade.

Ser autêntica não significa permanecer igual.

Significa conseguir mudar sem precisar deixar de ser quem somos.

As muitas Martas

Quando revisito minha história, encontro versões muito diferentes de mim.

A menina observadora.

A jovem cheia de planos.

A mãe tentando fazer o melhor que sabia.

A fotógrafa atenta aos detalhes.

A comerciante atrás do balcão.

A empresária fazendo contas, criando estratégias e tomando decisões.

A mulher que enfrentou períodos difíceis.

Aquela que teve medo.

A que foi corajosa.

A que insistiu.

A que precisou parar.

A que recomeçou.

Todas elas sou eu.

Não preciso escolher apenas a melhor para contar minha história.

Também não preciso defender todas as mulheres que fui.

Posso olhar para determinada decisão e reconhecer:

Hoje eu faria diferente.

Posso admitir:

Ali eu estava errada.

E também posso olhar para outra situação e compreender:

Naquele momento, fiz o melhor que conseguia com aquilo que sabia.

Nada disso apaga quem fui.

Ao contrário.

Talvez a autenticidade comece justamente quando já não precisamos editar a nós mesmos para construir uma personagem mais bonita.

Uma vida verdadeira não precisa ser uma coleção de acertos.

Aquilo que algumas pessoas enxergaram

Durante muitos anos, uma pessoa que conviveu comigo repetia uma frase:

— Não perca sua autenticidade.

Eu ouvia.

Guardava.

Mas talvez não compreendesse completamente o que aquela pessoa estava enxergando.

Hoje penso que ela havia percebido algo que ninguém tinha nomeado daquela maneira.

Não que eu permanecesse igual.

Eu nunca permaneci.

Minha vida mudou demais para isso.

Talvez fosse outra coisa.

Havia uma base que continuava reconhecível mesmo quando os cenários mudavam.

Minha tia Lina, certa vez, também me disse:

— Que bom que você continua humilde.

Essa frase ficou comigo.

Ela não estava dizendo que eu não havia mudado.

Eu havia crescido, trabalhado, conquistado coisas, enfrentado dificuldades, assumido responsabilidades e adquirido experiência.

Ela estava reconhecendo alguma coisa que continuava ali.

Foi então que comecei a compreender que crescer não precisa significar abandonar a base.

A base também cresce.

Ela se fortalece.

Cria raízes.

A Marta que Fernanda conheceu

Uma situação envolvendo Fernanda me mostrou isso de outra maneira.

Ela havia trabalhado como secretária executiva da CDL e nosso convívio naquele período não foi longo.

Anos depois, nossas vidas profissionais voltaram a se encontrar por causa da fotografia.

Em determinado momento, chegaram até ela comentários envolvendo nós duas.

O conteúdo dessa história não importa aqui.

Pertence a nós.

O que importa foi a atitude dela.

Fernanda poderia ter acreditado.

Poderia ter repetido.

Poderia ter alimentado aquilo.

Não fez.

Ela se lembrou da pessoa que havia conhecido anos antes.

E se perguntou, em essência:

A Marta que eu conheci faria isso?

Depois, veio conversar comigo.

Nunca esqueci sua atitude.

Não porque Fernanda conhecesse tudo a meu respeito.

Ninguém conhece.

Mas porque, durante o pouco tempo em que convivemos, alguma coisa havia sido suficientemente verdadeira para permanecer na memória dela.

Anos haviam passado.

As circunstâncias eram outras.

Nós duas também havíamos mudado.

Mas a Marta que ela encontrou naquele reencontro ainda era reconhecível para a Fernanda que havia conhecido a outra, lá atrás.

Aquilo me ensinou algo sobre autenticidade e também sobre reputação.

Reputação não é aquilo que conseguimos convencer os outros a pensar sobre nós.

Ela vai sendo construída silenciosamente.

Na maneira como tratamos alguém de quem não precisamos.

Na palavra cumprida.

Na forma como atravessamos uma divergência.

Naquilo que fazemos quando não existe vantagem em fazer.

Nos pequenos encontros que talvez nós mesmos esqueçamos, mas que alguém guarda.

Fernanda havia conhecido uma Marta.

Anos depois, procurou aquela mesma mulher.

E encontrou.

Não igual.

Reconhecível.

Adaptar-se não é fingir

Também precisei compreender outra coisa.

Autenticidade não significa comportar-se da mesma maneira em todos os ambientes.

Isso seria falta de percepção, não autenticidade.

Não converso numa reunião profissional exatamente como converso com meus filhos.

Não trato um cliente como trato uma amiga íntima.

A empresária precisa assumir responsabilidades que a mulher sentada tranquilamente em casa não precisa.

A mãe ocupa um lugar diferente da fotógrafa.

A adaptação faz parte da convivência.

Mudamos a linguagem.

O comportamento.

A postura.

O que não precisamos mudar a cada porta que atravessamos são os nossos valores.

Talvez a pergunta não seja:

“Estou agindo exatamente igual? ”

Mas:

“Quem está por baixo de todas essas adaptações? ”

Autenticidade também tem limites

Com o tempo, aprendi ainda que ser autêntica não significa expor tudo.

Existem partes de mim que pertencem somente a mim.

Existem histórias que envolvem outras pessoas e, por isso, exigem cuidado.

Posso contar o que vivi sem contar tudo o que sei.

Posso falar de um aprendizado sem revelar todos os bastidores que o produziram.

Posso preservar alguém sem falsificar minha própria experiência.

Há silêncios que não são mentira.

São limite.

Isso se tornou especialmente importante enquanto escrevo minha história.

Contar minha vida não me dá o direito de contar integralmente a vida dos outros.

Posso falar daquilo que aconteceu comigo.

Do que senti.

Das decisões que tomei.

Do que hoje compreendo.

Mas algumas histórias não precisam de nomes.

Alguns detalhes não acrescentariam sabedoria; acrescentariam apenas exposição.

Hoje isso também faz parte da mulher que sou.

Ser verdadeira não exige mostrar tudo.

Nem tudo o que penso precisa ser dito

Autenticidade também não significa falar imediatamente tudo o que passa pela cabeça.

Já aprendi demais sobre meu diálogo interior para acreditar nisso.

Nem todo pensamento merece virar palavra.

Alguns precisam ser examinados.

Outros passam.

Alguns nascem do medo.

Da irritação.

Da mágoa.

Do cansaço.

E há aqueles que, depois de algum silêncio, percebemos que nem sequer representavam aquilo em que realmente acreditávamos.

Posso ser autêntica e esperar.

Autêntica e mudar de opinião.

Autêntica e pedir desculpas.

Autêntica e reconhecer que não sei.

Autêntica e permanecer em silêncio.

Posso inclusive descobrir que determinada característica que durante anos defini como “meu jeito” não era minha essência.

Talvez fosse defesa.

Medo.

Hábito.

Imaturidade.

Uma forma de sobreviver a determinado período.

E posso abandoná-la sem deixar de ser eu.

Nem tudo aquilo que carregamos pertence às nossas raízes.

Algumas coisas podem ser podadas.

A árvore que eu sempre desenhei

Talvez por isso uma imagem tenha atravessado tantas fases da minha vida.

Durante muitos anos, em épocas diferentes, desenhei praticamente a mesma paisagem.

Uma árvore grande.

Galhos.

Uma casinha simples.

O sol.

Flores.

Um caminho.

Dois coqueiros.

E um balanço.

Desenhar aquela paisagem me acalmava.

Eu não precisava explicar o desenho.

Simplesmente o fazia.

Até que, alguns anos atrás, desenhei novamente.

Naquele dia, porém, a árvore estava diferente.

Sem folhas.

Apenas o tronco e os galhos.

Minha mãe chegou, viu o desenho sobre a mesa e perguntou sobre ele.

Eu respondi:

— Essa árvore é a minha vida.

Ela havia sido podada.

Mas não estava morta.

Continuava de pé.

Aguardando o tempo de brotar.

Essa interpretação não nasceu agora, enquanto escrevo este livro.

Foi o que eu disse à minha mãe naquele dia.

Talvez alguma parte de mim já compreendesse aquela imagem muito antes de eu conseguir compreender tudo o que ela significaria.

As raízes e a copa

Uma árvore adulta não permanece como a pequena muda que um dia foi.

Se permanecesse, talvez nem estivesse viva.

Ela cresce.

O tronco engrossa.

As raízes se aprofundam.

A copa aumenta.

Novos galhos aparecem.

Alguns se quebram.

Outros precisam ser podados.

Há períodos de florescimento.

Há períodos de espera.

Há temporais.

A casca ganha marcas.

E ela continua sendo a mesma árvore.

Foi impossível não pensar em mim.

Eu não quero voltar a ser a menina que fui.

Nem a jovem.

Nem a mãe dos primeiros anos.

Nem a fotógrafa que começava.

Quero carregar comigo aquilo que havia de verdadeiro nelas e continuar crescendo.

Não preciso conservar todos os galhos para preservar minhas raízes.

Talvez essa seja uma das diferenças entre autenticidade e apego à própria identidade.

Quando alguém diz:

“Eu sou assim. ”

essa frase pode significar duas coisas completamente diferentes.

Pode ser a tranquilidade de quem se conhece.

Ou pode ser a resistência de quem não quer crescer.

Hoje prefiro outra frase:

“Esta sou eu — e ainda estou me tornando. ”

A alma sem fantasia

Talvez seja por isso que escolhi chamar este capítulo de A Alma sem Fantasia.

Passamos parte da vida experimentando personagens sem perceber.

A mulher que precisa dar conta de tudo.

A mãe que nunca pode falhar.

A empresária que sempre precisa saber a resposta.

A pessoa forte que não pode cansar.

A mulher que precisa agradar.

Aquela que precisa provar alguma coisa.

Algumas dessas fantasias são colocadas sobre nós.

Outras vestimos sozinhos.

E existe um cansaço enorme em sustentar uma personagem por tempo demais.

Porque personagem precisa de plateia.

A alma não.

Aos 52 anos, uma das liberdades que mais valorizo é não precisar parecer uma mulher pronta.

Não estou pronta.

Ainda descubro pontos cegos.

Ainda revejo pensamentos.

Ainda encontro incoerências.

Ainda aprendo.

Ainda mudo.

E espero continuar mudando.

Mas desejo que, se alguém que me conheceu muitos anos atrás voltar a me encontrar, perceba alguma coisa familiar.

Não necessariamente minhas opiniões.

Elas podem ter mudado.

Nem minhas escolhas.

Algumas certamente serão diferentes.

Talvez reconheça algo mais profundo.

As raízes.

Um dia eu percebi

Existe ainda uma parte dessa história que só compreendi muitos anos depois.

Quando instalei minha loja onde ela está hoje e, mais tarde, vim morar ali, havia uma grande árvore no pátio.

Com o tempo ela foi podada.

Brotações vieram.

Seu tronco engrossou.

Passei a cuidar de sua copa.

Coloquei orquídeas em seus galhos.

Outras plantas cresceram sobre ela.

Há um balanço.

Há flores.

Há coqueiros.

Há uma casinha.

E eu gosto de sentar e contemplar aquele lugar.

Durante anos fiz isso sem estabelecer nenhuma relação com os desenhos que havia repetido em diferentes épocas da vida.

Até que um dia percebi.

Eu conhecia aquela paisagem.

Não era uma reprodução perfeita do papel.

Nem precisava ser.

Mas havia algo profundamente familiar diante dos meus olhos.

A árvore.

A casa.

As flores.

Os coqueiros.

O balanço.

A paisagem que tantas vezes minha mão havia desenhado agora fazia parte do lugar onde eu vivia.

E a árvore real também havia sido radicalmente podada.

Também ficou, durante um período, praticamente apenas com seus galhos.

Depois brotou.

Cresceu novamente.

Engrossou.

Hoje outras plantas vivem em seus galhos, e algumas orquídeas florescem sobre ela.

E ela continua sendo a mesma árvore.

Foi então que aquela imagem antiga ganhou outro significado.

Talvez eu tenha sido como ela durante toda a vida.

Não permaneci igual.

Fui crescendo.

Sendo podada.

Brotando novamente.

Engrossando o tronco.

Algumas coisas ficaram pelo caminho.

Outras chegaram depois.

Mas nunca precisei deixar de ser a mesma árvore para me tornar a árvore que sou hoje.

Talvez fosse isso que algumas pessoas enxergaram em mim antes que eu mesma soubesse nomear.

A pessoa que me pediu para não perder minha autenticidade.

Minha tia Lina, quando percebeu que algumas coisas continuavam ali.

Fernanda, quando se lembrou da Marta que havia conhecido anos antes.

Não encontraram a mesma mulher.

Encontraram as mesmas raízes numa mulher que continuava crescendo.

Hoje, quando olho para aquela árvore, sei que ela não precisa ser perfeita para ser preciosa para mim.

Eu a conheço.

Cuido dela.

Observo quando precisa ser podada.

Espero quando é tempo de brotar.

Alegro-me com aquilo que floresce em seus galhos.

E gosto simplesmente de sentar à sua sombra.

Passei muitos anos desenhando aquela árvore sem saber que, um dia, viveria à sua sombra.

Hoje eu sei.

E talvez seja essa a autenticidade que desejo conservar:

não permanecer igual, mas permanecer reconhecível enquanto continuo crescendo.

Agora percebo também outra coisa.

Quando reconhecemos verdadeiramente aquilo que somos e aquilo que recebemos, passamos a cuidar de outra maneira.

Hoje zelo ainda mais por tudo o que Deus me deu.

Porque reconhecer também é uma forma de consciência.

Processo do País Interior — Autenticidade

Objetivo: reconhecer aquilo que pode mudar e aquilo que desejo preservar enquanto continuo amadurecendo.

1. Retire os papéis por um instante. Sem profissão, funções, títulos ou expectativas, pergunte:

Quem sou eu?

2. Procure as raízes. Quais características atravessaram diferentes fases da minha vida e continuam fazendo sentido para mim?

3. Observe o que pode ser podado. Existe alguma coisa que continuo chamando de “meu jeito”, mas que talvez seja apenas hábito, medo, defesa ou imaturidade?

4. Permita-se mudar. Mudar de opinião, corrigir um comportamento ou encerrar uma fase não significa necessariamente abandonar quem somos.

5. Preserve seus limites. Ser autêntico não exige contar tudo, mostrar tudo ou explicar tudo.

6. Observe-se sem fantasia. Existe alguma personagem que estou cansada de sustentar?

7. Continue crescendo. Pergunte:

O que em mim precisa criar raízes mais profundas para que eu possa crescer sem me perder?

Princípio final

Autenticidade não é permanecer igual. É permanecer verdadeira enquanto se transforma.

Crescer sem arrancar as próprias raízes.

Marta Braatz

Agosto, 2026.

 

 
 
 

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